Era uma vez…
Noutros tempos todas as histórias de encantar ou de adormecer começavam assim: era
uma vez…
Um reino com paisagens maravilhosas, com um mar azul celeste e um céu límpido e
brilhante que se espelhava nele, com clima ameno e convidativo, com montanhas
verdejantes, prenhes de vida e regatos que se espraiavam, ora lânguida, ora
raivosamente, pelo declive, rumo à foz, onde iam adormecer nas planícies.
Os seus habitantes labutavam, incansavelmente, para produzir os alimentos necessários
à sustentação arando a terra e a sua vida era pouco menos que miserável.
O reino, sociedade organizada em torno de um regime monárquico tinha um rei que se
pavoneava pelas cidades onde a populaça se acotovelava na esperança de receber do
seu senhor um sinal de esperança para a melhoria da sua vida desgraçada, suplicando
para que não fosse sobrecarregada com impostos, pois o que produzia já não dava para
alimentar os seus e cumprir com as obrigações fiscais.
O rei a todos prometia amanhãs que cantam, que os milhões vão chegar aos bolsos das
famílias e das empresas, que já tem destinado muitos milhões para tratar da saúde de
toda a gente, da educação de todas as crianças e jovens, do emprego de todos os
profissionais com idade e capacidade de produzir e tornar o país um dos mais
desenvolvidos e ricos do universo. Até afirma, com toda a veemência, que o país cresce a
um ritmo maior do que o resto do mundo.
O rei, no seu afã de agradar aos seus súbditos, particularmente aos da sua feição, não se
esquece de dizer que ao mesmo tempo que tem o melhor serviço nacional de saúde e
uma escola pública de qualidade, com médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e
professores bem remunerados e muito felizes nos seus locais de trabalho, também vai
exigir que a justiça funcione com rapidez, eficiência e equidade, para que no reino todos
tenham as mesmas oportunidades e sejam tratados de forma igual.
Mas no concerto das nações o rei também tem de mostrar aos outros reis que respeita as
regras da transição energética, dos direitos humanos, da descarbonização urgente, para
colmatar os efeitos das alterações climáticas, do défice, das contas públicas e por aí
afora.
O povo no seu afã de sobrevivência vai vivendo na esperança de que com este rei a vida
vai ser menos penosa. Que deixam de se ver pessoas deitadas em cartões sujos no meio
das ruas, porque não têm casa para morar. Que vai deixar de ser preciso a solidariedade
de todos para que ninguém passe fome. Que vão ver os seus filhos aceder aos empregos
melhor remunerados porque estudaram muito e são muito competentes nas profissões
para que se prepararam durante muitos anos e não serão ultrapassados pela corte de
bajuladores encartados, ignorantes, incompetentes e desonestos que pululam ao redor do
rei e da corte partidária e parasitária.
Mas os dias e os anos vão passando e a esperança vai esmorecendo porque, apesar de
cada vez se pagarem mais impostos para satisfazer as pretensões do rei o resultado que
se vê é o desbaratar do dinheiro de todos em proveito de, apenas alguns, sempre os
mesmos, que se banqueteiam com opíparos manjares, enquanto os que,
verdadeiramente, trabalham e produzem se vêem esbulhados dos seu parcos haveres.
Assiste-se a um compadrio e nepotismo inusitado com membros do governo e alcaides a
repartirem entre si o esbulho que permanentemente, praticam com o povo.
A corte, principescamente paga, cada vez mais arrecada privilégios como automóveis
topo de gama ou, em alternativa, cheques mensais para utilização da UBER, permite-se
dar emprego a cônjuges de ex-ministros e até de preparador físico, próprio ou conjugal.
Benefícios a empresas privadas que reservam lugares para todos os que deixarem de
mamar no orçamento público.
Os alcaides, em cambalacho com empreiteiros, permitem construções em cima de linhas
de água, desviando o curso normal que depois provocam cheias e derrocadas que todo o
povo tem de pagar e não se passa nada, ninguém é responsável.
Os ajustes directos dos organismos públicos com os amigos e amigos dos amigos para
que nenhum intruso possa aceder, através de concurso, aos recursos públicos é prática
generalizada.
O fartar da vilanagem que rodeia o rei e com o seu beneplácito traz contentes mesmo
aqueles que só recolhem migalhas.
Não há dia ou semana que não apareça mais um escândalo, mais uma vil atitude da
casta que tudo suga e esmifra.
Por assistir à falta de vergonha massiva que grassa nos meandros reais o velho artesão
que toda a sua vida trabalhou, incansavelmente, e que viu os seus filhos, apesar do
esforço de toda a família e de eles próprios, terem obtido diplomas de alto gabarito,
mesmo assim não terem nenhuma oportunidade de singrar na vida e que, por isso
mesmo, tiveram que emigrar para outros reinos mais justos, menos corruptos onde os,
respectivos Reis e cortes são frugais e parcimoniosos na aplicação dos dinheiros
públicos, cada vez se sente mais desanimado e descrente.
O velho morre de saudade dos seu filhos e vê o futuro dos netos cada vez mais sombrio.
Vê perpetuar-se no poder uma casta que não augura nada de bom. Assim, ainda que com
repugnância, passou a dizer aos netos: não façais como os vossos pais que se mataram
a estudar e a aprender para, honestamente, melhorarem a sua vida e só o conseguiram
longe da família, vós juntai-vos à corte partidária do rei, não sejais tão íntegros, porque
isso será o suficiente para terdes uma vida de nababo e a coberto de qualquer
sobressalto.
Os velhos têm poucas coisas de que se orgulhar mas as lições da vida é uma excepção
que lhes faz ver as coisas com maior clarividência. .
Esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com a realidade de algum reino é
pura coincidência.
14/01/2023
Zé Rainho