O ano de 1963 foi para o Rainho um
ano de muita animação, alegria e mudança de vida.
Era o ano em que completaria vinte
anos de idade e, consequentemente, se sujeitaria, obrigatoriamente, à inspecção
militar como todos os rapazes da sua idade.
Em Fevereiro foi-lhe proposto ir à
Metrópole, para participar no Grande Encontro da Juventude, para representar a
JOC de Luanda. Para tal, o Movimento iria desenvolver actividades para
angariação de fundos que permitisse custear as viagens e estadia de oito dias
em Lisboa. Ficou de pensar no assunto e pensou.
Decidiu que iria solicitar à
empresa onde trabalhava há cerca de seis anos que lhe concedesse a licença
graciosa a que tinha direito, que era um dos benefícios concedidos aos
trabalhadores com mais de cinco anos de serviço. Se a empresa aceitasse,
naquele momento, abria-se a possibilidade de se deslocar a Lisboa sem custos
para si e sem custos para o Movimento e permitiria que prolongasse a estadia
por seis meses com o ordenado pago por inteiro.
Aceite esta solução pela empresa
foi decidido, em tempo recorde, que o Rainho se deslocaria à Metrópole. Foi
preciso comprar roupas adequadas ao frio já que em Luanda se passava o ano
inteiro em mangas de camisa e, quanto muito, na estação do Cacimbo, com um muito
ligeiro casaco de malha e, consequentemente, não dispunha de roupas quentes.
Era necessário mandar fazer fatos completos para rechear a mala de viagem. Não
havia pronto-a-vestir e fazer por medida levava o seu tempo. Uma correria,
portanto.
No dia um de Abril, dia dedicado à
mentira mas que, neste caso, infelizmente fora bem verdade, caiu uma borrasca
de chuva que tudo levou à frente. A cidade de Luanda tinha crescido muito e
muito depressa e, como diz o povo, “depressa e bem não há quem” com muitas lacunas
e com um sistema de drenagem e até de saneamento básico muito rudimentar. Daí
que a quantidade de água fora tanta que rompeu estradas e fez dela autênticos
rios tumultuosos, muito caudalosos e destruidores de ruas, passeios,
residências, casas comerciais, principalmente na Baixa de Luanda.
Também este episódio condicionou os
últimos preparativos para a viagem do Rainho, como a compra de prendas para a
família e outras coisas necessárias para uma estadia longa e distante.
Conseguiu-se uma viagem no navio
Angola para o dia 3 de Abril. O evento em Lisboa realizava-se nos dias 19, 20 e
21 de Abril. A viagem demorava 11 dias. O Avião ainda não era um transporte
muito usado e demasiado caro. Tudo se conjugava e se revelou como possível de
concretizar porque a determinação era total.
O navio Angola, não sendo dos mais
modernos da frota nacional, já tinha alguma qualidade e porte. O Rainho viajava
em 2ª classe – de referir que ainda havia 3ª e 1ª classe – os bilhetes também
custavam um valor diferenciado de acordo com estas classificações e as
condições de alojamento eram, também, bastante diferentes, de acordo com a
tipologia da classe em que se viajava.
Em segunda Classe havia camarotes
de 2, 4 e 6 lugares, em primeira havia camarotes individuais e em terceira os
dormitórios eram colectivos.
O mesmo se passava com as salas de
jantar que também eram diferenciadas.
Mas o Rainho preocupava-se pouco
com estes pormenores. Viajava com um outro sujeito bastante mais velho mas o
tempo era passado na piscina a nadar ou nos espaços de lazer, a disputar
torneios de ténis de mesa onde se safava bastante bem. E, como é bom de ver, a
viagem correu maravilhosamente. Foram onze dias de puro lazer e divertimento.
Para quem, desde criança, só tinha
tido tempo para trabalhar, no duro, era uma experiência incrível.
Dia 14 de Abril lá chegou ao cais
da Rocha. Naquele ano o dia 14 de Abril era domingo de Páscoa. Dia de festa da
família na aldeia mas que passava muito tenuemente despercebida na cidade
grande.
Esperava-o uma prima do pai que residia numa
casa muito modesta no Campo de Santa Ana, onde com a boa vontade e
hospitalidade característica da família sempre havia lugar para mais um.
Ali esteve durante cerca de dez
dias. Os primos trabalhavam muito. Cada um tinha dois empregos. Ela, no
Matadouro Municipal e de madrugada, entregava Jornais porta-a-porta. Ele, numa
indústria de produtos químicos, principalmente detergentes e que, ainda mais
cedo, ia à distribuidora dos Jornais para deixar um molho para ela e ele
carregava com outro para territórios mais distantes para poupar a mulher a um
esforço tão significativo. Tudo era feito a pé. Naquele tempo os transportes
privados eram só para os ricos e os públicos eram caros e não davam a resposta
necessária.
Esperava o evento que foi o
primeiro motivo da sua vinda à Metrópole o Grande Encontro da Juventude, assim
designado por ser um encontro de jovens de todo o país e que comungavam os
ideais da Acção Católica portuguesa e mundial. Uma grande aposta do Papa João XXIII
com o empenho total do cardeal patriarca de Lisboa.
O evento que sob o ponto de vista
espiritual mas também de vivência e comprometimento social marcou a sua vida,
indelevelmente, para sempre. Mas houve outro factor que foi o despoletar de
todo o seu projecto de vida para futuro. Encontrou, reencontrou, como se
queira, uma jovem lindíssima que se apoderou, de imediato e para sempre, do seu
coração virginal.
Moça esbelta, olhos castanhos, tez
morena, cabelo negro, longo, enrolado no cocuruto de forma artística, cintura
fina, seios firmes e arredondados, pernas bens torneadas, sorriso franco e
aberto, recato nas atitudes e comportamentos, porventura até um pouco tímida.
Mas, muito mais do que estes atributos físicos que eram muito atraentes e
cativantes, foi a sua pureza de sentimentos nobres e, igualmente, o seu coração
virginal que prendeu, com amarras indestrutíveis, o coração do nosso jovem.
Falou-se em reencontro porque, de
facto, tinham sido colegas na escola primária, no ano em que fizeram a quarta
classe. O primeiro ano de uma turma mista, na aldeia da naturalidade, quando
tinham dez anos de idade e nunca mais se tinham visto, desde a partida do Rainho
para a África.
A Teresinha, assim se chamava a
jovem tinha, entretanto, ido estudar para um colégio privado, com sede no
concelho da sua residência e ingressado também num Movimento da Acção Católica
designado por JEC (Juventude Estudantil Católica) e essa circunstância também a
encaminhou para o evento juvenil que mobilizou milhares de jovens em todo o
país.
A vida nem sempre é o que queremos
mas é aquilo em que se transforma por circunstâncias, mais ou menos fortuitas, e
um evento que seria um sacrifício pessoal no seu início, veio a revelar-se como
um desígnio de felicidade para todo um futuro.
Sem comentários:
Enviar um comentário