Se nos lembrarmos da técnica e da
qualidade da teia que a aranha faz, com seus fios viscosos, para apanhar as
suas presas e associarmos à tecelagem de tecidos vemos que há laços, nós, fios
condutores e secundários, que numa dança artística se entrelaçam para
resultarem numa verdadeira obra de arte.
Se transpusermos esta figura de
estilo para uma estrutura, um organismo, um clube, um partido político, uma
religião e adicionarmos o conceito de enredo, de intriga, temos um caldo de
condições para se desenvolver, até ao infinito, uma panóplia de situações e
condições para o domínio, a submissão, o aprisionamento de pessoas,
instituições e presas fáceis de aniquilar.
A sociedade portuguesa – muitos
dirão, mundial – mas, na circunstância, interessa-nos aquela em que nos
inserimos, que está mais perto de nós, que nos afecta mais directamente,
encontra-se, de há umas três ou quatro décadas, envolvida numa teia de
interesses, compadrios, corporações, quer políticas, quer profissionais, que
aperta e sufoca sempre, mais e mais, todos aqueles que estão fora desses grupos
e estrutura organizadas.
Quando essas teias são
meticulosamente urdidas por gente sem escrúpulos, sem valores morais, sem
princípios éticos, resultam não em obras de arte mas em emaranhados, que
dificilmente se descobre o autor ou autores da TEIA.
E, como no exemplo da teia de
aranha, quando mais a presa se debate – aqui as presas somos todos nós,
cidadãos de bem, fora do guarda-chuva do poder – mais se enreda e mais
aprisionada fica, esgotando suas forças, numa luta titânica, mas inglória, perante
os fios e os laços que tudo podem e tudo corroem.
Assim nós nos encontramos. Vemos
indivíduos que há quarenta anos não passavam de pés rapados, a viver no luxo,
na vaidade, no esbanjamento, com propriedades, férias e ostentações diversas,
desenterrando cofres abarrotados de dinheiro a cada pé de passada. Vemos donas
de casa que, na generalidade da sua classe são as mais sacrificadas e as mais
pobres dos pobres, com fortunas incalculáveis cujos números de milhões até
custam a pronunciar. Vemos processos judiciais a prescrever deixando aos
bandidos, corruptos, ladrões que, usurparam, roubaram, extorquíram, bens a
pessoas e instituições, o produto do esbulho e nada lhes acontece.
Assistimos a corporações
profissionais que, deontologicamente, tinham a obrigação de denunciar tropelias
de tão alta envergadura, a entreter-nos com um qualquer tipo de vírus ou
pequenas questiúnculas ou violência entre grupos marginais e de pequena
marginalidade.
Damos conta de uma justiça que
não funciona, que funciona mal, a destempo, parcial, cega, surda e muda perante
tanta e tão gigantesca tropelia enquanto o povo morre na urgência de hospitais
públicos, por falta de assistência ou é, pessimamente, tratado em macas nos
corredores por falta de condições, espaços e profissionais.
Assistimos, incrédulos, a um
constante aumento da dívida pública que todos nós, os nossos filhos e netos,
teremos de mais cedo ou mais tarde, pagar e não se passa nada. Não há
sobressalto. Não há inquietação.
Vemos, com regularidade e muita
frequência, o abandalhamento, quando não mesmo de violência extrema, de
profissionais pilares da sociedade, como é o caso dos professores,
profissionais de saúde e até magistrados e não acontece coisa nenhuma.
Que sociedade é esta? Em que teia
se deixou enredar? Será que consegue dela sair?
Realmente é uma teia medonha, hiperviscosa, mas havemos de sair dela. Não podemos desistir, Zé.
ResponderEliminarNestes tempos conturbados que atravessamos, espero que esteja tudo bem contigo e com a tua família.
Grande abraço
Zé, para quando o Estórias de Vida 14? Ainda tens muito para contar, deduzo.
ResponderEliminarAbraço
Grande abraço Agostinho. Nós estamos bem Graças a Deus. Tristes porque não podemos estar com as nossas filhas mas estamos com esperança de que tudo vai passar e ficar bem. Vamos continuar com com a estórias de vida 14, 15, 16 ...
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