REFLEXÃO
Esta mania que os velhos têm de
pensar, reflectir sobre as coisas e os acontecimentos tem que se lhe diga. O
facto de terem tempo disponível ajuda a cultivar essa mania, quase vício. Mas
tem os seus contras. É que, muitas vezes, com o seu pensamento, começam a
dissertar sobre assuntos incómodos para os próprios e para os outros.
Como estamos incluídos nesta
faixa etária e porque cultivamos muito esta arte de pensar – sim, pensar é uma
arte que os mais jovens desconhecem ou minimizam – cá estamos a questionar-nos
sobre estas coisas da vida, ou da morte, segundo o ponto de vista, que merecem
a nossa reflexão.
Então vamos ao caso: - O que
levará um nonagenário que passou por muito na vida trabalhou, que nem um
escravo, na terra natal e no estrangeiro, que tem uma vida, sob o ponto de
vista económico, bastante boa, a equacionar por termo à vida com as suas
próprias mãos e, para agravar, no Domingo de Páscoa? Será desamor ou, pelo
contrário, será uma imensa prova de amor, por não querer dar trabalho,
incómodo, noites sem dormir?
O que levará um homem desta
estirpe a socorrer-se de um modelo arcaico de por fim à vida – enforcamento –
quando hoje é fácil o recurso a doses maciças de barbitúricos ou, em última
análise, a um tiro na cabeça, sabendo, como se sabe, que são métodos mais
indolores e mais expeditos, que não requerem todo um ritual de preparação
antecipada, a corda, o nó corredio, o alçapão? Mais, o que levará um homem,
desta idade, a preparar tudo em total e absoluta solidão, longe do olhar de
todos, inclusive da sua mulher, sem ninguém dar por nada?
Que dor tão profunda sentirá no
seu coração e no mais recôndito da sua alma? Sendo, como era, um homem sensível
que se comovia com a dor alheia, que chorava sem rebuço quando se emocionava
num funeral ou, mesmo uma cerimónia religiosa, que sofrimento atroz o
atormentaria, para o conduzir a este desfecho sem dar alerta de que tal seria
possível?
Sabíamos que andava doente há
cerca de dois anos e que, com mais frequência do que seria desejar tinha que
recorrer ao Hospital para desentupir canais biliares que, quando entupidos, lhe
provocavam muitas dores, mas não era doença de matar, irreversível.
Custa-nos a crer que fosse só por
causa da doença. Um homem robusto que já tinha passado por muito não se iria
abaixo pela dor física. A dor que sentia teria, forçosamente, de ser muito
lancinante para conduzir ao total desespero. Não conseguimos entender e temos
uma imensa pena. Ninguém merece, ao fim de noventa anos de vida, ainda que
muitos desses anos tenham sido muito sofridos, acabar desta forma.
A Igreja Católica, a religião que
ele professava, não advoga nem aceita que se pratique a morte, própria ou de
outrem e, este homem tinha plena consciência deste mandamento. Porquê, então?
Não encontrando explicação para o
acontecido só peço a Deus, infinitamente misericordioso, que se apiede da sua
alma.
Porventura não devia pensar sobre
estes acontecimentos que me incomodam, que me fazem sofrer e pensar como pode
ser ingrata a vida de um semelhante mas, que hei-de fazer? São coisas de velho.
Meimoa, 13 de Abril de 2020
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