terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Estórias de vidas 1


Capítulo 1

O filho dos artífices, o Zé vinha de uma família tradicional com as características inerentes e, apesar de não serem proprietários de grandes courelas, tinham algo de seu e casa própria para viver o que, em bom rigor, era uma imensa vantagem, por não ter de pagar renda, numa época em que o dinheiro era muito escasso e pouco circulava.
Os pais eram monárquicos de pensamento, mais por influência da amiga Ana Preta, viúva rica, poderosa e muito respeitada na aldeia, do que por convicção política ou conhecimentos que pudessem influir na opção. Eram monárquicos, como poderiam ser outra coisa qualquer, mas havia uma certa predilecção pelo Rei, pela Rainha e pelos Príncipes, já que mais não fosse, pelo respeito pela hierarquia. Sim, porque o respeito era sagrado naquela casa e naquele agregado familiar. Um respeito muito próximo da religião que professavam – a católica – já se vê, onde a ordem não se discute, acata-se.
Aqui toda a família puxa para o mesmo lado na procura do bem comum e na harmonia familiar. Mesmo o Zé, sendo o mais habilitado academicamente, não deixava de estar atento aos ensinamentos dos seus maiores, quer quanto às tradições, quer relativamente aos ofícios, quer à opção política monárquica que vinha de seus pais.
Era uma família que preservava a cultura popular e tradicional, desde as cantigas às récitas em que participava amiudamente. Conhecia todas as cantigas antigas, quase sempre relacionadas com a vida quotidiana ou com, hipotéticos, factos impressionantes e muito sentimentais. Nos seus momentos de lazer, que eram poucos, dedicavam-se ao teatro e às cantigas.
O Zé sempre pautou a sua vida por um esforço de aprendizagem e aperfeiçoamento da arte de pedreiro e, ainda muito jovem, já aplicava, ainda que empiricamente, o teorema de Pitágoras, para a implantação de uma nova habitação, casa de campo ou palheiro, que lhe fosse encomendado. E trabalho era coisa que não faltava pois as famílias eram sempre numerosas e com necessidades de habitações, mesmo pobres, mas que albergassem todo o agregado familiar.
Chegada a idade, na época parecia haver idade para tudo, casou com uma mulher trabalhadora, a Teresa, que além de cuidar da horta se esforçava por manter a casa limpa a roupa asseada e os filhos acarinhados.
O Zé nas suas empreitadas trabalhava de sol a sol mas, no sábado à noite, lá vinha com o dinheiro da semana para casa. De salientar que, na época, estamos a falar dos primeiros anos do século passado, ainda antes da implantação da República, dinheiro corrente era coisa rara. As transacções por serviços ou mercadorias era, em regra, em géneros, pelo que haver dinheiro corrente era uma mais-valia para qualquer família.
Começam a nascer os filhos sendo os dois primeiros rapazes, a seguir duas raparigas, mais dois rapazes e a última era uma rapariga. Sete filhos era um padrão generalizado havendo quem tivesse muitos mais e também que tivesse menos, já se vê.
Era uma família alegre que vivia em harmonia e, mesmo quando o Zé tomava uns copos a mais, ao contrário do que era comum, não havia zaragatas havia cantorias. Vozes bonitas, dolentes, e canções apropriadas a que se juntavam até os tios, primos e avós. Era, realmente, uma casa onde a alegria perdurou até aos cinquenta anos da Teresa altura em que partiu uma perna e, por falta de assistência médica – médicos era coisa que não havia – nunca mais recuperou nem saiu da cama até que faleceu passados dois anos.
A vida nunca mais foi a mesma e o Zé, apesar de contar com a ajuda das filhas mais velhas para a gestão da casa, nunca mais teve alegria e assim como candeia que esgota o azeite, também ele se deixou morrer aos bocadinhos e, com apenas sessenta e três anos de idade finou-se de vez, tendo nessa altura três filhos casados e um solteirão – por já ter passado a idade normal de casar – e os restantes três fizeram-se à vida e foram constituindo as suas próprias famílias logo que atingiram a idade considerada adulta.
Desta família nasceu uma das protagonistas desta história que viria a ser a mãe daquele a quem apelidámos de Zinho. Falamos da Rainha, única filha que recebeu o apelida da mãe. Todos os outros irmãos receberam o apelido do pai.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Estórias de vida


Decorria a segunda metade do século XIX e os denominados partidos do rotativismo – Regenerador e Progressista – que congregavam gente com valor lutavam, cada um à sua maneira e dentro da sua ideologia, por uma Corte menos numerosa e, também, menos parasitária, luta que se veio a revelar inglória, pelos vícios enraizados e pelas vicissitudes próprias de regimes endeusados. Os Monarcas dos diferentes países, regiões e épocas sempre foram considerados e, eles próprios se consideravam, eleitos de Deus.

Enquanto isso, o Partido Republicano, em embrião, onde pontificavam alguns intelectuais mas onde predominava o Poder subterrâneo da Maçonaria, que numa ligação espúria e incompreensível, com a Carbonária, desenvolviam acções de desestabilização do regime em Portugal.

Serviu, na circunstância, o Ultimato Inglês que exigia a retirada de tropas do território que ligava as colónias de Angola a Moçambique. Bom motivo para o Partido Republicano acusar o Rei de inércia e permissividade e até de humilhação ao poder estrangeiro.

O País que trabalhava e produzia via-se, a cada ano que passava, mais sobrecarregado de impostos e mais espoliado dos seus haveres. Pontificava, igualmente, um desinteresse pela educação das classes populares deixando estas numa posição muito próxima de “servos da gleba”, da Idade Média.

O desenvolvimento do País não arrancava e não se vislumbrava uma nesga de futuro consentâneo com as ambições das classes trabalhadoras e produtivas.

Os Ingleses que, orgulhosos da sua aliança com Portugal, a mais antiga da Europa, sempre nos ajudaram dando-nos “o presunto desde que lhe déssemos o porco”, incrementaram a exploração do vinho do Porto que, em regra, era exportado a troco de alguma maquinaria. Por que, enquanto a Inglaterra tivera a sua Revolução Industrial logo no início do século, tal revolução passou ao lado de Portugal tendo este se mantido como país eminentemente agrícola.

Se estas “minudências” eram sentidas e vividas nos grandes centros urbanos da época – Lisboa, Porto e Coimbra – na chamada “província” labutava-se de Sol a Sol para angariar sustento para as famílias, geralmente, numerosas e satisfazer as obrigações para com o Estado, pagando a décima, as licenças e as taxas aplicadas à terra e à respectiva produção, que era esse o pecúlio que sustentava a dita Corte numerosa e parasitária, nas suas vaidades e no seu esbanjamento.

O fermento da insubordinação estava, intrinsecamente, enraizado no povo trabalhador e sofredor, maioritariamente o povo rural, dada a insipidez da indústria. Não havia uma classe operária como nos países mais desenvolvidos do Norte da Europa nem organizações sindicais que lutassem pela dignificação e valorização do trabalho.

Por essa altura, finais do século, numa aldeia perdida no interior deste país, quem tinha algumas propriedades agrícolas eram considerados “proprietários” por oposição aos que não tinham courelas que se denominavam “trabalhadores”. Porém, bem vistas as coisas, trabalhadores eram todos e as diferenças esbatiam-se e resumiam-se à fartura ou escassez de alimentos, conforme os casos.

O analfabetismo era a praga endémica do País e só alguns privilegiados nascidos no Interior conseguiam a frequência de uma escola, quase sempre menorizada, sem condições e com mestres pouco conhecedores.

Daí a frequência de um curso superior ser uma miragem, para a esmagadora maioria das crianças do sexo masculino e, para o sexo feminino era utopia pensar na frequência escolar.

Por consequência, qualquer rapaz com o exame do ensino primário elementar, era uma pessoa com estatuto diferenciado, sendo mesmo escutado em demandas entre vizinhos e conhecidos.

Na época referida houve duas famílias, uma mais dedicada a artífices e outra à agricultura, vizinhas e amigas desde os tempos dos respectivos avós que tiveram dois rapazes que frequentarem a Escola e conseguiram, com óptimo aproveitamento, fazer o Exame do Ensino Primário Elementar.

O filho dos artífices aspirava dar continuidade à arte de seus pais, agora com mais conhecimentos, mais facilidade nas contas e na feitura de cartas ou obtenção de licenças, quiçá elaborar projectos que pouco mais eram do que cubos ou hexágonos desenhados em traço simples, mas que mostravam as respectivas medições.

Era, por si só, uma ascensão social aspirada, legítima e ambicionada por poucos. Só mesmo os espíritos mais abertos é que tomavam a consciência da importância do saber ler, escrever e contar. Desta feita aqui se demonstra que mesmo nas noites mais escuras pode apareceu um raio de luz ainda que difuso.

O Filho do Proprietário – filho de um segundo matrimónio – pois tanto o pai como a mãe era viúvos quando do enlace matrimonial nasceu de uma mãe que já tinha dois rapazes, um com 16 e outro com 14 anos de idade, fruto do primeiro casamento. Porém, era filho único daquele matrimónio já que o seu pai enviuvara sem ter filhos.

Os meios-irmãos, como vulgarmente se diz, ainda que incorrectamente, pois irmãos são sempre de corpo inteiro, eram ambos analfabetos, nunca frequentaram a escola e foram, desde cedo, habituados aos trabalhos rurais como era prática comum naquele tempo.

Quando este bebé nasceu logo o pai, homem abastado, lhe traçou o destino que era estudar para se tornar advogado.

Não era vulgar numa aldeia haver a percepção da importância de um homem de leis já que as questões eram, em regra, resolvidas pelos designados homens-bons. Porém, o agricultor abastado queria que o seu filho fosse alguém para além da terra e dos trabalhos do campo. Porventura por se ver espoliado por um Estado usurpador do esforço de quem trabalha ou, por uma consciência política mais activa.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Ancestralidade

Hoje descobri um arquivo que me permite afirmar que:
Os meus bisavós paternos contraíram matrimónio no dia 16/04/1899, já lá vão mais de cento e vinte anos. Documento oficial. Então é assim:
"José Caldeira, viúvo de Felicidade de Jesus, de 38 anos de idade, filho de Manuel Pires Caldeira e de Joaquina Rosa, casou com Maria Lourença, viúva de Manuel Francisco, de 37 anos de idade, Filha de Francisco Cabanas e de Maria Augusta".
Aspecto interessante: - ao meu pai primeiro filho varão do casamento do meu avô Ricardo com a minha avó Maria da Fonseca foi dado o nome do seu bisavô e era, rigorosamente, Manuel Pires Caldeira e à minha tia Joaquina, a primeira filha do Casal, foi dado o nome da sua avó, Joaquina Rosa sem mais apelidos. Por aqui se vê como os ramos familiares se dividem em nomes que, a partir da terceira ou quarta gerações não têm nada a ver com os seus ancestrais.
Na verdade, como o meu avô Ricardo de seu nome completo Ricardo Pires Caldeira e a minha avó Maria da Fonseca deveriam, em bom rigor, todos os seus filhos terem apelidos de Fonseca Caldeira e, de facto não é assim. Como atrás se viu a minha Tia Joaquina não recebeu de seus pais nenhum apelido, o meu pai, o meu Tio José e o meu Tio Joaquim só apanharam apelidos do pai. Já a minha tia Elisa só apanha o apelido da mãe e os meu tios Francisco e António têm os apelidos devidos, Fonseca e Caldeira bem como a minha tia Paulina que, porventura por ser a última também apanhou o apelido dos dois.
Esta falta de uniformidade de registo civil faz com que em muitas famílias haja ramos, aparentemente, só aparentemente, diferentes quando, no concreto pertencem ao mesmo ramo.
Ainda hoje a pensar sobre a ancestralidade nesta freguesia de Meimoa, sem rigor científico, cheguei à conclusão há pouco mais do que meia dúzia de famílias na sua origem. A família Bento, Caldeira, que tem ramos de Caldeira e Bento, Cabanas, Soares, Fatela, Fonseca, Romão e pouco mais. Os Pires, Louro, Nabais, Moiteiro e Martins são, na sua maior parte, oriundas das anteriores.
No meu caso concreto perdi o ramo Pina que, em abono da verdade poderia e deveria ser, mas este meu ramo é oriundo da Vila de Touro tal qual como há outras origens, como Valverde, Fatela que, como os próprios nomes indicam, têm origem nas mesmas localidades.
Vamos ver se consigo mais informações para poder acrescentar valor a este relato. Fica para outro dia.

REIS MAGOS

Para os cristãos hoje celebra-se o dia de Reis também chamado de Epifania do Senhor. Nesta aldeia perdida e abandonada pelos poderes instituídos ainda se beija o Menino Jesus, se encerra a quadra natalícia e, o povo, ainda canta as Janeiras. Tudo está diferente e, em vez de se darem enchidos do porco morto há pouco tempo, dá-se dinheiro. Não é a mesma coisa mas dá para a malta que canta as janeiras de porta em porta fazer um convívio lá mais para a frente, próximo do carnaval.
Lembramo-nos de outros tempos em que esta tradição servia para os mais pobres terem acesso a mimos alimentares que, de outra forma, não tinham possibilidades. Hoje é mais para a rambóia, para o convívio, para preservar a tradição. Gostamos disso. Não participamos porque nos custa levantar o rabinho do quente em noites tão frias, mas apreciamos muito o espírito de quem o faz.
Amanhã retomam as aulas para os estudantes. No tempo em que éramos criança só acontecia no dia 7 de Janeiro porque o dia seis era dia santo de guarda. Tudo muda e, em muitas coisas muito bem, noutras nem tanto.
Os dias já estão maiores e nos ensolarados já se sente que o Sol se põe próximo das 17H30 o que os torna muito mais agradáveis. O frio é que é cada vez mais mas, como dizem cá no burgo, é fruta do tempo.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Actualidade

Basta dar uma vista de olhos aos jornais e outros meios de comunicação para se ficar com os cabelos em pé.
Desde logo a estupidez do mais inqualificável chefe de Estado, o maioral dos Estados Unidos, que com o seu pensamento troglodita e o seu comportamento de menino mimado se põe a jeito para uma escalada de violência, que não atingirá só o seu país, mas o mundo. Com isto não branqueamos o comportamento de assassino que o general iraniano teve durante toda a sua vida mas, a lei de talião, nunca foi boa conselheira.
Passando para acontecimentos caseiros não ficamos melhor na fotografia. Os nossos banqueiros mais parecem um bando de ladrões do que agentes de desenvolvimento. Não têm pejo em por no olho da rua qualquer família que tenha deixado de pagar uns poucos milhares de euros, ou ainda menos, mas são lestos a perdoar dívidas a ricos que, só o são com o dinheiro dos outros. Falamos claro no rei dos cogumelos, do Pereira Coutinho, do Sporting, do Maló e outros a quem os Bancos emprestaram fortunas sem acautelarem as garantias necessárias, como fazem, aliás, aos pobre que precisam de um empréstimo para comprar ou remodelar uma modesta habitação, viatura automóvel ou outro bem indispensável à vida, nos dias de hoje.
A violência doméstica que demonstra que só no ano que acaba de terminar matou trinta e cinco mulheres. Casos reportados. Quem sabe quantos maus-tratos há que ninguém sabe que existem.
Os acidentes de viação com mortes e estropiados que cada vez são mais sem que nada se faça para minorar.
A imunidade de políticos trapaceiros que se aproveitam dos lugares para enriquecer e encher os bolsos de amigos e parentes.
Um governo que deixa bater médicos, professores, agentes da autoridade e nada faz para obviar a esta situação.
Um serviço nacional de saúde que cada vez é menos serviço, menos nacional e mais de doença. Vejamos o que acontece com as mães que morreram de parto, os bebés que nasceram em ambulâncias, os velhos que morrem por falta de assistência. Os Hospitais sem urgências, sem profissionais e sem meios de diagnóstico, sem medicamentos e sem equipamentos.
O interior do país abandonado ao seu destino de desertificação, ao abandono das terras, da floresta e de uma agricultura que deveria ser sustentável e não é.
Serviços públicos sem o mínimo de condições para prestar o serviço que lhe é exigido e inerente por falta de meios e recursos.
A arbitrariedade de ter de se esperar um ano e, às vezes mais, por uma reforma da Segurança Social que de segurança tem nada e de social é uma caricatura, com a desculpa esfarrapada de que não há pessoal. Ninguém de bom-senso acredita nisto. Ninguém que conheça casos concretos como é o meu caso pode admitir tal dislate. Aqui vai um exemplo: um português trabalhou mais de quarenta anos descontando para a Segurança Social o que a Lei lhe exigia sem qualquer tipo de recalcitração. Tem sessenta e seis anos e meio de idade. Por obedecer aos critérios fixados pelo Governo para obtenção da sua pensão de reforma solicita-a, de acordo com o legislado. Por falência da empresa onde trabalho toda uma vida estava a receber o subsídio de desemprego há menos de um ano. Não lhe pagam a pensão mas cortam-lhe o subsídio de desemprego. Não há funcionários para dar ao contribuinte aquilo que tem direito mas há trabalhadores, na mesma entidade e serviço, para cortarem o subsídio desemprego. Isto é um Estado? Isto é um Governo?
A constituição de Comissões de ética na Assembleia da República que, o seu presidente, um socialista que nunca fez nada na vida a não ser política, não deixa que as reuniões se façam em regime aberto mas sim à porta fechada. Isto é ética?
A contribuição financeira para que o Tribunal Constitucional pudesse fiscalizar os políticos e os Partidos Políticos que não é disponibilizada inviabilizando o trabalho indispensável à clareza de procedimentos de quem é responsável pelo dinheiro de todos nós. Isto é transparência?
Isto não é um país, é uma caricatura.
 

Povo Infeliz


POVO INFELIZ…





Se tudo fora como se esperava,

Não seria nada assim,

Haveria ética, seriedade, competência;

Trabalho, dedicação e experiência,

Resultados, benefícios p'ra sobrevivência,

De todo um povo em decadência.



Mas que querem os mandões

Deste País, desgraçado?

Porque, cada vez mais, se sente,

Mais desprotegido e mais gente,

Com necessidades básicas permanentes,

Postas em causa, aos trambolhões.



Enquanto o Povo não perceber,

Que é preciso intervir

Dia-a-dia e sempre,

Para dar a conhecer,

O seu descontentamento.

Mostrar que o que é de todos,

A todos há-de servir.

O que é público é comunitário

E não, apenas, partidário.



Haja vergonha na cara,

Decência nos procedimentos

Para que todos aceitem, melhor,

Toda a espécie de sofrimentos.



Se a política se tornar,

Forma de vida decente,

Talvez os Homens de bem

Arrisquem participar,

No trabalho mais premente.

Zé Rainho


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Era uma vez

Era uma vez… Qualquer “estoria” que se preze, por princípio, deve começar: “era uma vez”.... Uns dirão que é normal, corriqueiro, antiquado. Outros, pensarão, apenas, que é uma forma prosaica e pouco imaginativa. Não nos ativemos a possíveis adjectivações. Apeteceu-nos e, pronto. Sabem? Às vezes, aos velhos também apetecem coisas. Que se há-de fazer? Cá vai a “estória”: Nestes, como noutros tempos, numa qualquer floresta, situada numa qualquer localidade deste planeta, gravemente enferma da globalização, obrigatoriamente consumista, exigentemente conhecedora, cerebral mas não emocional, invejosa q.b., exaustivamente competitiva, assumidamente egoísta, os animais que a habitavam já não sabiam que fazer. Andavam atarantados procurando compreender o alcance das medidas, sistematicamente anunciadas, enfaticamente repetidas e supostamente objectivas, com vista a um amanhã risonho, fraterno, plural, solidário, onde todos tivessem o direito de nascer, crescer e viver cercados de amor, ternura, tranquilidade, segurança e com um mínimo de condições que satisfizessem as necessidades básicas, secundárias e até de prestigio, às quais, um sábio lá do sítio gostava de se referir, como direitos de todos e de cada um, sem excepção e/ou exclusão. Enfim, de levar uma vida, da concepção à morte, sem sobressaltos e angústias e terminar os dias com a dignidade devida a qualquer ser vivente, sem que no final se visse “depositado” numa qualquer caverna destinada a coisas imprestáveis. Apesar das medidas, dos choques, dos sacrifícios de hoje, rotulados como receita para o gozo do amanhã, os animais andavam inquietos: desagradados uns; emproados outros; uns sem um buraco onde se abrigar e sem um trapo para se cobrir, outros rodeados de espaços abertos e cobertos, com aquecimento central, lagos artificiais, campos de diversão e outras coisas mais. Enquanto alguns se viam postergados para as margens do seu habitat transformadas em guetos, mesmo que todos os dias labutassem duramente, do romper do Sol até a noite já ir adiantada. Desde tenra idade até à adultez ou mesmo velhice, num esforço constante e persistente para ser cada vez mais útil, mais capaz, mais competente, mais contribuinte líquido para toda a sociedade, já os outros, por influência dos “padrinhos”, das “cunhas”, dos “magnatas” e dos “nomes família”, mal saíam da adolescência, com uma aprendizagem simplista, sem experiência de vida e de sobrevivência, saltavam para a ribalta da tal globalização como administradores de qualquer coisa, grandes espaços, muitos números, com direito a luxos e mordomias e desta forma, coisas que deveriam ser de todos eram só de uns poucos. Estes poucos não precisavam de suar para ter os tais espaços cobertos, luxuosamente atapetados e adornados, pagos com cartões das empresas que administravam. Às vezes até recebiam prendas, em vez de honorários, para não pagarem o contributo que era devido à manutenção da floresta. É claro que alguns animais mais reflexivos se questionavam sobre o porquê de tanta disparidade, de tanta injustiça, de tanta desigualdade, de tanta iniquidade e cogitavam sobre a forma de mudar o estado daquela sociedade. Logo pensaram: - e se ouvíssemos os entradotes na idade que de tão viajados já conheciam outros modelos sociais? Se bem o pensaram melhor o fizeram. Pediram aos sábios, conselhos. Estes defenderam teorias, elaboraram leis, apresentaram teses mas os dias e os anos passavam e os resultados quando não se mantinham pioravam. As desigualdades em vez de se esbaterem acentuaram-se. Premiava-se a mediocridade e subalternizava-se a excelência. Enfim, o caos estava instalado e a insatisfação levava constantemente a manifestações quando não, mesmo, a actos de violência, vandalismo, ou coisa pior, racismo, xenofobia, terrorismo ou mesmo fundamentalismo. Porque a necessidade era tanta, num belo dia de Sol resolveram reunir-se, em Assembleia-geral, na vã esperança de comparar competências, capacidades, esforços e verem se podiam mudar o “Status Quo” instalado. Estabeleceram critérios de avaliação para procurarem encontrar quem governasse a floresta de uma forma mais justa e equilibrada. Isto exigia de todos e cada um, uma demonstração inequívoca, quer das capacidades intrínsecas quer das competências adquiridas. Desta feita foi decidido convocar um referendo para que a todos fosse dada a possibilidade de mostrarem as tais capacidades inatas e as ditas competências adquiridas, para que depois de avaliadas se elegesse o bicho melhor preparado para governar o que já era um desgoverno. É claro que apareceram os elefantes, as baleias, as orcas, os tubarões, os rinocerontes e outros mastodontes que demonstraram que a sua força era insuperável e até se atreveram a lançar OPAS (Outras Potencialidades Assumidas e Subsidiárias) uns sobre os outros. Vieram depois os mais ágeis: felinos, gazelas e outros, que de tão velozes, em maratonas eram imbatíveis. Também não deixaram de aparecer as serpentes, venenosas ou inofensivas, mas sempre rastejantes e viscosas. As águias-reais de olhar agudo penetrante e velocidade na caça à presa. Enfim, todo o tipo de espécies que habitava a floresta e que de uma forma ou de outra mostravam ali a sua sageza, destreza, corrida, força, natação voo, nas tais coisas básicas e indispensáveis à vida e à sobrevivência de que nos falava o tal sábio do início da “estória”. Analisados os resultados obtidos em função de todos os parâmetros estabelecidos, ao fim de um escrutínio sem truques nem malabarismos, as projecções à boca das urnas falharam todas, e em toda a linha. Porque se uns apontavam o leão como Rei eleito devido ao seu urro aterrorizador, outros diziam que o leopardo ganharia pela sua astúcia e agilidade e outros ainda apostavam no elefante pela sua força descomunal. Engano puro: o leão sendo forte e inteligente, não conseguia voar. Faltavam-lhe requisitos. O leopardo até subia às árvores mas não nadava e muito menos voava, apesar de ser veloz na corrida. Do elefante nem se fala, excepto na força e resistência todos os restantes parâmetros eram prejudicados. Não haveria ninguém que satisfizesse os quesitos? É claro que havia e daí a surpresa. Quem seria? Foi o Pato Bravo. Sim, o Pato. Apesar de não preencher, eficazmente, nenhum dos quesitos conseguia ser medíocre em todos. Voava mal, mas lá dava os seus pequenos voos. Nadava mal, mas não se afogava no lago. Corria pouco, mas lá ensaiava as suas curtíssimas corridas. Conclusão: foi eleito o Pato como o mais apto e mais condizente às necessidades organizativas da floresta. Não sendo bom em nada, não tendo competências para coisa nenhuma, nem sendo excelente em nenhuma tarefa, fazia da sua mediocridade a diferença pretendida. Nesta floresta afinal, não é preciso ser forte, nem inteligente, nem competente, nem ágil, nem eficaz, nem sequer lutador, basta que se seja medíocre. Esta é a condição básica para se chegar ao poder, desfrutar de benesses, ser alguém na vida. Desta feita, ainda que nos custe, lá teremos que aprender e esforçar-nos por sermos Patos, para que um dia qualquer, não nos confrontemos com, o inevitável empurrão, para as valetas da vida. Abril de 2006