Capítulo 1
O filho dos artífices, o Zé vinha de
uma família tradicional com as características inerentes e, apesar de não serem
proprietários de grandes courelas, tinham algo de seu e casa própria para viver
o que, em bom rigor, era uma imensa vantagem, por não ter de pagar renda, numa
época em que o dinheiro era muito escasso e pouco circulava.
Os pais eram monárquicos de
pensamento, mais por influência da amiga Ana Preta, viúva rica, poderosa e
muito respeitada na aldeia, do que por convicção política ou conhecimentos que
pudessem influir na opção. Eram monárquicos, como poderiam ser outra coisa
qualquer, mas havia uma certa predilecção pelo Rei, pela Rainha e pelos
Príncipes, já que mais não fosse, pelo respeito pela hierarquia. Sim, porque o
respeito era sagrado naquela casa e naquele agregado familiar. Um respeito
muito próximo da religião que professavam – a católica – já se vê, onde a ordem
não se discute, acata-se.
Aqui toda a família puxa para o
mesmo lado na procura do bem comum e na harmonia familiar. Mesmo o Zé, sendo o
mais habilitado academicamente, não deixava de estar atento aos ensinamentos
dos seus maiores, quer quanto às tradições, quer relativamente aos ofícios, quer
à opção política monárquica que vinha de seus pais.
Era uma família que preservava a
cultura popular e tradicional, desde as cantigas às récitas em que participava
amiudamente. Conhecia todas as cantigas antigas, quase sempre relacionadas
com a vida quotidiana ou com, hipotéticos, factos impressionantes e muito
sentimentais. Nos seus momentos de lazer, que eram poucos, dedicavam-se ao teatro
e às cantigas.
O Zé sempre pautou a sua vida por
um esforço de aprendizagem e aperfeiçoamento da arte de pedreiro e, ainda muito
jovem, já aplicava, ainda que empiricamente, o teorema de Pitágoras, para a
implantação de uma nova habitação, casa de campo ou palheiro, que lhe fosse
encomendado. E trabalho era coisa que não faltava pois as famílias eram sempre
numerosas e com necessidades de habitações, mesmo pobres, mas que albergassem
todo o agregado familiar.
Chegada a idade, na época parecia
haver idade para tudo, casou com uma mulher trabalhadora, a Teresa, que além de
cuidar da horta se esforçava por manter a casa limpa a roupa asseada e os
filhos acarinhados.
O Zé nas suas empreitadas
trabalhava de sol a sol mas, no sábado à noite, lá vinha com o dinheiro da
semana para casa. De salientar que, na época, estamos a falar dos primeiros
anos do século passado, ainda antes da implantação da República, dinheiro
corrente era coisa rara. As transacções por serviços ou mercadorias era, em
regra, em géneros, pelo que haver dinheiro corrente era uma mais-valia para
qualquer família.
Começam a nascer os filhos sendo os
dois primeiros rapazes, a seguir duas raparigas, mais dois rapazes e a última
era uma rapariga. Sete filhos era um padrão generalizado havendo quem tivesse
muitos mais e também que tivesse menos, já se vê.
Era uma família alegre que vivia em
harmonia e, mesmo quando o Zé tomava uns copos a mais, ao contrário do que era
comum, não havia zaragatas havia cantorias. Vozes bonitas, dolentes, e canções
apropriadas a que se juntavam até os tios, primos e avós. Era, realmente, uma
casa onde a alegria perdurou até aos cinquenta anos da Teresa altura em que
partiu uma perna e, por falta de assistência médica – médicos era coisa que não
havia – nunca mais recuperou nem saiu da cama até que faleceu passados dois
anos.
A vida nunca mais foi a mesma e o
Zé, apesar de contar com a ajuda das filhas mais velhas para a gestão da casa,
nunca mais teve alegria e assim como candeia que esgota o azeite, também ele se
deixou morrer aos bocadinhos e, com apenas sessenta e três anos de idade finou-se
de vez, tendo nessa altura três filhos casados e um solteirão – por já ter
passado a idade normal de casar – e os restantes três fizeram-se à vida e foram
constituindo as suas próprias famílias logo que atingiram a idade considerada
adulta.
Desta família nasceu uma das
protagonistas desta história que viria a ser a mãe daquele a quem apelidámos de
Zinho. Falamos da Rainha, única filha que recebeu o apelida da mãe. Todos os outros irmãos receberam o apelido do pai.
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