CAPÍTULO 2
Já o filho do proprietário, o Ricardo nascera em berço de ouro, pois o pai era dono de muitas e grandes parcelas de terreno com olivais, vinhas e terras cerealíferas. O mesmo não se pode dizer da mãe que, casara por amizade, eventualmente, mas ainda mais por interesse, pois era a forma de criar os seus dois filhos do primeiro matrimónio que, com o falecimento do primeiro marido perdera algum do seu capital e vivia com dificuldades económicas. Ainda que esses filhos já crescidos, 16 e 14 anos de idade, já pudessem auxiliar no trabalho da casa mas não eram muito dados ao sacrifício e ao trabalho.
Já o filho do proprietário, o Ricardo nascera em berço de ouro, pois o pai era dono de muitas e grandes parcelas de terreno com olivais, vinhas e terras cerealíferas. O mesmo não se pode dizer da mãe que, casara por amizade, eventualmente, mas ainda mais por interesse, pois era a forma de criar os seus dois filhos do primeiro matrimónio que, com o falecimento do primeiro marido perdera algum do seu capital e vivia com dificuldades económicas. Ainda que esses filhos já crescidos, 16 e 14 anos de idade, já pudessem auxiliar no trabalho da casa mas não eram muito dados ao sacrifício e ao trabalho.
A mãe do Ricardo era mulher de casa e
nada dada a trabalho do campo. Era vaidosa e o seu orgulho levava-a a ser
considerada uma mulher um tanto impertinente e, para sustentar todo esse
capricho nada melhor do que usar a fortuna do segundo marido. Até os filhos do
primeiro matrimónio, o Manuel e o José se sentiram com direito a benesses a que
não estavam habituados. Nunca tiveram outra ocupação que não ajudarem o pai no amanho das
pequenas e raras propriedades e até trabalhavam ao jornal para quem lhe pagasse
os pouquíssimos escudos diários. Agora viam neste casamento da mãe a
oportunidade de melhorar o seu capital económico sem esforço.
Daí a tornarem-se briguentos e
relaxados foi um passo muito pequeno. O padrasto bem os admoestava para o tipo
de comportamento pouco consentâneo com o modo de vida que ele próprio sempre
tivera mas, eles eram rebeldes e pouco dados a ouvir bons conselhos. Eram
aquilo a que se chamava uns bons bardinos ou valdevinos.
O Ricardo, apesar desta convivência
malévola, sempre se identificou mais com o pai do que com a mãe, apesar da
adoração que nutria por esta. Daí ter recebido valores éticos e morais de
elevado sentido cívico.
Desde pequeno que frequentou a
escola e tal como aquele que viria, muito mais tarde a ser seu compadre pelo
casamento dos filhos, o Zé também ele fez a instrução primária com elevado
aproveitamento. O professor até dizia que nunca teve um aluno tão inteligente
como ele.
Crescia assim na abundância
económica e no saber, através da aprendizagem das letras e da aritmética, vendo
o pai a gerir com sageza as propriedades, com sobriedade e bom senso, o que lhe
permitia aumentar cada vez mais o seu pecúlio.
Desta forma e por vontade expressa
do pai o Ricardo, logo que terminasse o ensino primário, deveria rumar à capital de
distrito para ingressar no Liceu e prosseguir os seus estudos que, almejava,
serem de nível superior.
Mas o homem põe e Deus dispõe. Sem
que nada o fizesse prever andava o Ricardo no último ano do ensino primário quando
o pai faleceu, de repente, de causas desconhecidas, aliás como era comum e
muito generalizado na época.
Apesar deste grande contratempo na
vida do Ricardo, da mãe e dos meios-irmãos, a vontade do pai, que coincidia com a
do filho, fora respeitada numa primeira fase.
Tinha-se, entretanto, implantado a
República e o País vivia numa situação de precariedade relativamente a
orientações políticas. Tudo contribuía para a instabilidade geral e também
económica.
Na casa do Ricardo tal agrava-se, por manifesta
inépcia da sua mãe e dos filhos mais velhos já, homens feitos, mas madraços e
brigões quanto baste.
Como quem o seu não vê o diabo lho
leva, como diz o povo, a fortuna que o pai do Ricardo deixara só para si, pois os
casamentos em segundas núpcias faziam-se com separação geral de bens, era a Lei
Geral, começou a ser delapidada pela mãe e pelos meios-irmãos com a ajuda, está
bem de ver, do aumento da despesa que este fazia por já estar matriculado e a
frequentar o Liceu. Era preciso pagar a pensão, os livros e as demais
necessidades de um rapaz que tinha uma vontade férrea de aprender sempre mais e
mais.
Só foi preciso um trimestre para que
a mãe do Ricardo, quando este regressou para passar as férias de Natal,
influenciada pelos filhos mais velhos, o convencesse a deixar de estudar porque
as despesas eram demasiadas. Este gostava muito da mãe e, mesmo contrariado,
não teve coragem de dizer a esta que gastava do que era dele e de mais ninguém
e, por isso queria e iria continuar a estudar.
Foi este o seu primeiro momento de
fraqueza e o início da sua desgraça.
O trabalho do campo não o seduzia,
por isso passava os dias a discutir com os mais velhos a situação política da
Nação, em plena efervescência da Primeira República e os irmãos e a mãe
continuaram na sua senda dilapidatária do património herdado.
Desde cedo começou nos derriços namorisqueiros.
Em simultâneo nas demandas judiciais de vizinhos e amigos que não sabendo ler
nem escrever se viam, por força de um pedaço de terra, dum cômoro ou de uma
passagem, envolvidos nessas demandas e era ele quem ajudava a resolver as
questões, sempre com bom senso e sentido de Justiça, diga-se em abono da
verdade, mas tal custava-lhe dinheiro e tempo, porque nada fazia com interesse
pessoal e era sempre pródigo no pagamento de despesas que a outros cabiam.
As consequências não se fizeram
esperar e, como é bom de ver, lá vinha a necessidade de vender um prédio hoje,
outro amanhã e assim sucessivamente.
Como era um rapaz de uma cultura
intelectual muito acima da média dos rapazes do seu tempo e como era de uma
inteligência prodigiosa perdia-se a fazer poesia, a ler o jornal que vinha para
a Junta de Freguesia e a demonstrar destrezas e capacidades técnicas e também
de força para levar de vencida trabalhos duros ou simples demonstrações de
alarde, de valentia.
Chegada a idade pouco madura ainda,
mas impetuosa, de uma juventude passada em busca do tempo perdido e nunca
achado, começaram os namoricos e aí começou a rabiar uma rapariga mais velha
dois anos de uma beleza invulgar como fora tudo na sua vida até então.
A sua Maria – a maioria das
raparigas tinham por nome próprio Maria - passou então a ser namoro sério e
permanente ainda que com o descontentamento de sua mãe.
Apesar das contrariedades o namoro
era sério e, como diz o povo “o lume ao pé da estopa o diabo lhe assopra” a
Maria engravidou.
O Ricardo, apesar da pouca idade,
dezassete anos, quis assumir a sua responsabilidade e propôs o imediato
casamento mas, sua mãe que, como já se deu a entender não era lá flor que se
cheirasse, bateu o pé e não deixou casar o seu filho e seu amparo económico,
sem contrapartidas. Desta feita exigiu aos pais da Maria um dote equiparado ao
pecúlio de que o Ricardo era detentor.
As pessoas justas e não ambiciosas
veriam nesta proposta uma afronta, um insulto, que o era de facto. Contrariava
em absoluto a vontade do Ricardo mas a Lei estava do lado da mãe deste. O
Casamento só poderia consumar-se com a maioridade que era, à época, de vinte um
anos. Logo, contra factos não há argumentos, o Ricardo não teve mais hipóteses do
que aquelas que a sua mãe ditava.
Para os pais de Maria era um
problema bicudo pois tinham mais quatro filhos e cederem à chantagem da mãe do
João era, por assim dizer, deserdar os restantes pois, tudo o que possuía, não
era mais do que o que tinha o Ricardo. Ficar com uma filha solteira com um filho
nos braços era uma desonra e “prato cheio” para a coscuvilhice do povaréu.
Enquanto se decidia a situação o Ricardo manteve-se firme na sua posição e na assumpção da sua responsabilidade mas,
mesmo assim, chegou o fim do tempo e nasceu o primeiro filho, que na
circunstância era uma filha, sem que o casamento acontecesse. Mas como o tempo até
à maioridade do Ricardo ainda era longo os pais da Maria não tiverem outro remédio
que não fosse ceder à chantagem e doarem o que tinham e não tinham à Maria,
para que o casamento se fizesse. Tal aconteceu mas criou, desde logo, uma
animosidade em relação ao Ricardo que se estendia à sua mãe mas que se centrava,
principalmente, neste.
Fez-se o casamento e passados dois
anos nasceu um rapaz e a vida foi tomando o seu rumo. A Maria era extremamente
trabalhadora e esforçada. Uma mãe extremosa e o Ricardo continuou a sua vida de
boémio e, por dá cá aquela palha, lá vendia um prédio começando, já se vê,
pelos do dote da Maria que, um a um, voltaram aos primitivos donos, embora com
um sacrifício tremendo dos pais da Maria.
Acrescer a este tipo de vida nada
consentânea com a projectada pelo seu pai, o Ricardo tornou-se um marido e um pai
com bastantes defeitos. Ao contrário daquele que viria a ser seu compadre,
quando se embebedava punha em rebuliço toda a casa e toda a família. Chegava
mesmo a agredir a esposa que, com a sua admoestação, apenas queria viver uma
vida mais desafogada e mais feliz. Aos filhos nunca se preocupou em
proporcionar-lhes o mesmo privilégio que o próprio tivera e nunca os deixou
frequentar a escola. Porém, jamais lhes batia.
O tempo não pára e o Ricardo viu-se
chamado a cumprir o serviço militar obrigatório quando completara vinte anos de
idade – fazia anos em vinte e nove de Dezembro – e a incorporação era em
Janeiro.
Mais um contratempo pois esse
serviço militar não trazia valor que se visse e o “pré” – assim se designava o
salário de um recruta – não dava sequer para os cigarros quanto mais para as
viagens para vir ver a família.
Acresce o facto de, num exército de
analfabetos, a incorporação de um mancebo com a quarta classe ser caso raro. O
conhecimento tem, em regra, sede de conhecimento e, como tal, o Ricardo viu-se,
sem perceber muito bem porquê, rodeado de oficiais subalternos e sargentos
milicianos que gostavam de conversar com ele e passar umas noitadas na sua
companhia e tudo isso custava dinheiro. Muito dinheiro, principalmente para
quem não ganhava nada.
Seguia-se, como é expectável, a
carta para a Maria para que vendesse mais uma propriedade para que ele pudesse
satisfazer as necessidades de recruta com aspirações ao oficialato das Forças
Armadas.
É evidente que, quando acabou a
recruta, o João foi proposto pelo Comandante do quartel para aceder ao posto de
sargento, posto que este, orgulhosa mas insensatamente, recusou.
Passou assim um ano sem
rendimentos, com despesas acrescidas já que, nada auferindo, necessitava de
provir aos seus gastos e às despesas da sua mulher e dos seus dois filhos.
Mais, a sua Maria ainda se desunhava a fazer, semanalmente, uma cesta com as
melhores iguarias da época para que o seu amado não passasse privações
alimentares ou menores mimos. O sargento lateiro que não sendo da aldeia ali
tinha casado e estava no mesmo quartel bem dizia à Maria que o Ricardo não
precisava de nada e que passava o tempo de folga na estroinice com os oficiais,
mais por despeito do que por pena, já que não morria de amores pelo Ricardo e via
neste, alguém que, sendo inferior hierarquicamente era muito superior a si
perante o olhar da hierarquia militar. Desta feita, mais e mais prédios era
necessário vender para suprir a falta de rendimentos mensais.
Findo o serviço militar e também
terminada a Primeira Grande Guerra Mundial o Ricardo regressa ao seu viver civil,
com mais vícios e mais despesas do que aquelas que poderia suprir.
Os filhos começaram a crescer em
número e em idade o que acrescentava dificuldades económicas à vida do casal.
Por sua vez a sua mãe e os seus
irmãos não se cansavam de rastejar aos seus pés pedindo ajuda para fazerem face
às dificuldades que cada vez mais iam tendo. O seu coração bondoso não
regateava essa ajuda o que acrescentava dificuldades às que já sentia na sua
própria casa.
Durante dez anos assim viveu, em
constante sobressalto da despesa ser superior à receita e nessa contabilidade
do deve e haver ter de cumprir com a sua palavra de honra – que sempre cumpriu
religiosamente não importando o sacrifício que isso representava – e assim os
prédios, finitos como tudo o que é terreno e matéria, iam-se esvaindo por entre
os dedos o que, num círculo vicioso, constituía um decréscimo de rendimento à
medida que aumentava a despesa.
Aventureiro como sempre fora.
Destemido bastante. Resolveu ir para a França com toda a sua família já que
este País, que fora tão drasticamente atingido durante a Guerra e dizimado
pelos Alemães, necessitava de se reconstruir e não tinha mão-de-obra suficiente
para tal.
Se bem o pensou melhor o fez e, de
um dia para o outro, pôs pés a caminho levando consigo sua mulher e os quatro
filhos que já constituíam a sua prole.
Arredores de Tours fixou residência
com os seus e começou a trabalhar na construção da linha férrea que haveria de
ser a via que liga Paris aos países do Sul, Espanha e Portugal.
O trabalho era duro mas a
recompensa monetária satisfatória. Dava para o sustento da família e ainda para
amealhar uns trocos.
O filho mais velho, rapaz – sim
porque as raparigas só podiam aprender a ser boas donas de casa - o Manuel, que
nunca teve tempo de ser menino, como dizia o Soeiro, fora, também ele,
empregado naquele duro trabalho, começando por distribuir água pelos
trabalhadores, levando um cântaro às costas, com o peso do qual, mal se podia
ter nas pernas. E ganhava dinheiro. E, com esse dinheiro, ajudava a compor o
orçamento familiar.
Tudo parecia correr de feição e a
vida do Ricardo e da família modificou-se profundamente.
Mas o nosso homem não foi fadado
para ser submisso. Ter um patrão. Ter horários. As circunstâncias também nunca
ajudaram a que tais hábitos fossem adquiridos. Talvez a frustração de não ter
seguido uma carreira académica como fora seu desejo de menino e desejo de seu
pai.
A Maria, sua mulher engravidara de
mais um rebento, o que até era normal numa época de famílias numerosas. Os
rumores de uma nova Guerra Mundial, a segunda daquele século, aproximavam-se a
passos largos e a França tinha um exército de frentes de batalha, que designava
por Legião Estrangeira, para o qual mobilizavam os não nacionais em primeiro e
quase exclusivo lugar.
A inquietude e insensatez do Ricardo viram, nestas circunstâncias, bons motivos para mandar a mulher e os filhos
para Portugal e para a sua aldeia natal. Justificando – se é que precisasse de
justificação – que não queria um filho francês e que não se sujeitaria a uma,
eventual, mobilização para a Legião Estrangeira.
Se bem o pensou melhor o executou
e, num de repente, lá veio a família para Portugal com a promessa de que ou ele
regressaria também, mais tarde ou, em alternativa, após o nascimento do bebé,
voltariam todos para a França caso os rumores da guerra não se concretizassem.
Para mal de toda a família e de si
próprio a guerra era, cada vez mais, inevitável e o Ricardo, livre de peias, todo
o dinheiro que ganhava e que era suficiente para sustentar toda a família,
passados poucos meses não chegava para as suas despesas e, como um fado, um
destino inexorável, lá escreveu mais uma carta à Maria dizendo-lhe que vendesse
mais uma propriedade e lhe mandasse o dinheiro que ele queria, também,
regressar.
Toda a vida foi assim. Homem de carácter.
Vertical, honesto, com valores e com princípios, mas sem organização e visão
prospectiva.
Talvez a maior inteligência da
aldeia, na época, não foi capaz de manter – já não se pedia que aumentasse o
património, a exemplo do que fizeram os seus maiores, pai e avô – ainda o
delapidou quase todo, deixando os filhos mais velhos, sem a habilitação mínima,
o ensino primário complementar e pobres de bens materiais. Todos eram
analfabetos literais até constituírem vida própria e independente. Depois disso
todos eles fizeram a quarta classe, elemento fundamental para almejarem uma
vida fora do campo, para si e para os seus filhos.
A Maria, como também era apanágio
na altura não tinha voz na matéria e limitava-se a trabalhar desalmadamente
para que aos filhos não faltasse o que comer nem o mínimo de agasalho. Para
além disso sofria as dores da maternidade a cada dois anos. Desta forma, não
fora a morte à nascença de duas crianças – como era frequente no Portugal de
antanho - e o rancho de filhos seria de dez. Assim foram oito que,
Graças a Deus, viveram todos até à bonita idade de cerca dos noventa anos.
História triste de quem, por
vicissitudes várias, muitas delas externas à vontade do próprio, fizeram deste
homem fora do vulgar, sabedor, poeta, cultíssimo, um pai que não soube cuidar
dos seus e foram estes, com a educação que lhes transmitiu, os valores que lhes
apontou, que após a morte prematura da mãe, com apenas sessenta e dois anos de
idade, o sustentaram e lhe deram a qualidade de vida até à sua morte, com
setenta e dois anos, que nunca tivera até então.
Com que então a pesquisar as origens? Bem andas tu, Zé Caldeira.
ResponderEliminarForça!
Abraço