Capítulo 10
O Manuel ao fim de um ano de
trabalho ganhou muitos conhecimentos quer no domínio do trabalho, quer no
domínio do saber, porque foi fazer o exame da quarta classe e foi aprovado sem
qualquer benesse ou condescendência e, ainda, no domínio das relações pessoais.
Conheceu muitas empresas e nessas empresas muitas pessoas, o que lhe permitiu
arranjar novo emprego, muito melhor remunerado e muito mais estável e sem
necessidade de calcorrear as ruas da cidade.
Assim arranjou emprego na, então,
fábrica da borracha que, como o nome indica, foi a precursora da fábrica de
pneus. No caso concreto preparava a borracha para a recauchutagem de pneus de
todas as medidas e feitios.
O Manuel foi para uma secção
pioneira dentro da fábrica que estava e esteve sempre em permanente ampliação e
diversificação de produtos, que era a secção dos plásticos. Estamos a falar de
pentes, botões, e até sapatos tudo produtos feitos através de injecção de
plástico liquefeito que era introduzido em moldes.
O dono da fábrica era um empresário
de muito valor. Empreendedor, bom conhecedor do ramo, antigo operário e que dava
valor ao trabalhador. O Manuel encontrou no patrão, o senhor Macambira, mais do
que um patrão, um amigo e, talvez por isso, ele tivesse sido mais do que um
trabalhador, um homem preocupado com o trabalho sistemática e continuamente, a
ponto de sair da cama às duas ou três da manhã para ir à fábrica ver se o turno
estava a funcionar bem e se não havia preguiça ou desperdício.
A Fábrica que começara como
manufacturação da borracha em poucos anos tornou-se uma das maiores empresas de
Luanda que chegou a empregar mais de mil trabalhadores.
Diversificou a produção passando a
tecer tecidos para lençóis, toalhas, pano para sapatilhas de ténis, aprimorou
os plásticos onde passou a produzir tudo o que era possível pensar, mantendo os
pentes, o calçado mas indo para as embalagens de comida ou coisa maior,
embalagens grandes para os mais diversos produtos, desde a fruta, aos
galináceos. Passou a ser um potentado naquele domínio e uma referência em toda
a cidade e, com o seu desenvolvimento, também os seus trabalhadores melhoraram
substancialmente a vida.
O Manuel, no fim do ano de 1962, já
era empregado naquela fábrica há cinco anos, foi chamado ao patrão para este
lhe dizer: “Manuel não queres construir uma casa”? Ao que este lhe respondeu: -
querer queria mas não tenho dinheiro para tal. E o Macambira lhe disse: - vai
procurar um terreno no Bairro Popular como estão a fazer muitos dos teus
colegas que eu te empresto o dinheiro para a construíres que é o que estão
todos a fazer, ou julgas que eles têm mais dinheiro do que tu? O Manuel
agradeceu a oferta do patrão mas respondeu que não sabia conviver com dívidas e
por isso não ia arriscar a construir a casa. Então o Macambira, homem justo,
pegou num cheque onde escrevera cem mil escudos (cem contos), na
altura já havia Bancos Privados em Luanda, nomeadamente o Banco Pinto & Sotto
Mayor, e entregou-o ao Manuel dizendo que, já que era tão honesto que não
queria dívidas merecia, pelo menos, uma bonificação pela dedicação e trabalho
que dava àquela empresa.
Como já se disse, a vida dá tantas
voltas que, um trabalhador rural que nada mais sabia do que tratar do amanho
das terras, nas mais diversas tarefas, ao fim de pouco mais do que meia dúzia
de anos se transformou num trabalhador altamente qualificado e grande amigo do
grande empresário que era seu patrão. Era tão amigo que ele e toda a sua
família fora convidado para o casamento dos filhos do patrão. Também ali
trabalhou toda a vida até se vir embora para Portugal após a descolonização
dita, exemplar, mas que melhor se diria desastrosa para portugueses e
angolanos.
O Manuel quando melhorou as suas
condições de vida profissional e económica achou que deveria dar aos seus
irmãos que tinham ficado na Metrópole a mesma oportunidade que o seu irmão Zé
lhe dera a ele e, por isso, começou a chamar para junto de si o seu irmão mais
novo, o António que foi para Angola, Luanda em 1958, começou a trabalhar num escritório
de uma boa empresa e que, continuando a estudar à noite, chegou a licenciar-se
em Ciência Política e Administrativa pela Universidade de Lisboa.
Seguiram-se as suas irmãs mais
novas e seu cunhado Joaquim pouco depois de ter estabilizado o estado da
colónia depois do Golpe de 4 de Fevereiro de 1961.
Angola até esta data tinha sido
ostracizada pelo regime político nacional e servia apenas para garantir à
Metrópole a receita em matérias-primas que não possuía no seu território
continental e insular. Porém, o golpe militar dos nacionalistas angolanos fez
uma reviravolta na política e, com o envio de milhares de soldados para o
combate, também se aboliu a carta de chamada e facilitou a entrada no país e
este desenvolveu de forma exponencial.
Foram as obras públicas. A
construção civil. A diversificação da agricultura com a cultura de frutas e
criação de gado. Toda a mão-de-obra era escassa e o emprego era mais dos que os
pretendentes. Também os ordenados subiram e as condições de vida de uma vasta
classe média melhoraram substancialmente o que dinamizou o comércio interno e
externo, bem como as importações e exportações.
A este desenvolvimento também não é
alheio o incremento do transporte aéreo, até ai quase inexistente e à sua
democratização, o que facilitou imenso o intercâmbio entre os portugueses de cá
e de lá.
Deixou-se de ir para Angola como
quem ia para o fim do mundo, para quem as famílias se despediam até ao dia do
juízo, como se a separação fosse igual à morte e a perspectiva de visitar
Portugal tornou-se bastante comum.
A família, agora alargada, pois
viviam na cidade de Luanda seis dos oito irmãos do Manuel, com os respectivos
filhos, mulheres, maridos e até sobrinhos, faziam uma grande família que todos
os fins-de-semana se reuniam para confraternizar. Pode dizer-se sem margem para
qualquer tipo de dúvida que eram felizes. E essa felicidade durou mais de dez
anos.
Construíram as suas próprias casas
e à medida que economizavam dinheiro investiam-no no seu bem-estar e no
desenvolvimento daquele território que consideravam seu e onde queriam ser
sepultados. Não foi assim mas devido a vicissitudes que um dia a História
Científica há-de clarificar.
Zé Caldeira,
ResponderEliminarApesar de pouco comentar, continuo a acompanhar a tua odisseia. Contextualizas tudo muito bem, de tal forma que o leitor não tem qualquer dificuldade em situar-se no espaço e no tempo.
Continua, não pares. Que história de vida, amigo!
Grande abraço