segunda-feira, 20 de julho de 2020

IGUALDADE?


Tenho passado a minha vida, e olhem que já vai longa, a ouvir falar em igualdade, a propósito de tudo e do seu contrário.
É a igualdade de direitos. A igualdade entre o homem e a mulher. Igualdade na justiça (a justiça é igual para todos!!!!! Só para rir!). Igualdade dos povos. Igualdade das nações. Igualdade no nascer. Igualdade no morrer. Igualdade, igualdade, igualdade é o mote para todos os discursos, da esquerda à direita, com uma acentuação pronunciada na esquerda nacional. Isto arrepia-me. Porque não se pode tratar igual o que é diferente.
Vejamos:- se houver uma obrigatoriedade legal de percorrer cem metros em dois minutos onde está a igualdade entre um indivíduo de porte atlético, com tudo no sítio e aquele raquítico, cheio de fome, a quem, ainda por cima, falta um pé?
Onde está a igualdade, na existência de um serviço público indispensável a todos, onde é preciso subir 15 degraus, sem alternativa, entre um indivíduo com todas as suas capacidades locomotoras e outro que se vê confinado a uma cadeira de rodas?
Onde está a igualdade, num passeio de um grande centro urbano, abusivamente lotado de automóveis, que tem de ser percorrido por um indivíduo com capacidade visual e um cego?
Onde está a igualdade, entre uma criança que tem de se levantar às sete da manhã para ir para a escola que começa às nove e outra que mora a cinquenta metros do edifício escolar?
Onde está a igualdade, entre duas famílias que têm necessidade de colocar os seus filhos na Universidade sedeada num grande centro urbano onde uma reside na cidade e a outra numa qualquer aldeia que dista a duzentos quilómetros?
Onde está a igualdade, entre um banqueiro e um bancário quando os dois têm que fazer face às despesas de formação dos seus filhos?
Os exemplos seriam infindos como poderão calcular. Não vale a pena continuar a enumerar.
Por esta razão eu prefiro pensar em equidade. A cada um segundo as suas necessidades e de acordo com as suas potencialidades.
Por que equidade é ter respeito pela diferença. Respeitar tempos. Respeitar condições. Respeitar indivíduos, sejam eles homens ou mulheres. Sejam paraplégicos ou atléticos. Tenham olhos de lince ou, simplesmente, invisuais. Sejam altos ou baixos, gordos ou magros.
Que tal, então, exigir do legislador mais atenção à equidade e menos à igualdade?

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Indignação!



Passadas quase vinte horas após ter assistido a uma coisa que não sei se hei-de chamar debate, catequização, malabarismo, mentira compulsiva ou qualquer outro epíteto menos simpático acho que posso, com isenção e sem qualquer tipo de paixão analisar o que se passou.
Pessoalmente não gosto de touradas, como não gosto de pesca à linha, ou raves,  ditaduras, por exemplo. Não gosto de muitas outras coisas como é óbvio, notório e transparente.
Gosto muito de respeito mútuo. Gosto de pessoas, de animais, de planícies, planaltos, mares, sol, rios e ribeiros cristalinos. Gosto de democracia e liberdade.
Então ao que vem este arrazoado? Deve-se, particularmente, ao que assisti no Telejornal da TVI de ontem à noite. Admito perfeitamente que outros tenham visto diferente. Respeito. O que é que eu vi?
Vi o debitar de uma cartilha demagógica, arrogante, de superioridade moral da Líder Parlamentar do PAN, com chavões estafados e inconsistentes como “evidência científica”, “questão factual” e outras atoardas similares. Para dar alguma credibilidade à sua exposição – melhor seria dizer cassete – apresentou uma sondagem da Universidade Católica feita a alguns lisboetas de que ela inferiu, maldosamente ou apenas chamando-nos otários, que a maioria dos portugueses são contra as touradas. Disse também que o Governo Regional dos Açores teria gasto, durante a pandemia quinhentos milhões de euros – perante o ar estupefacto dos jornalistas em presença remediou para quinhentos mil euros – de apoio às touradas na Ilha Terceira. Argumentando que tal era inadmissível porque havia no arquipélago outros artistas a passar fome. Não sei se é verdade porque pelo que atrás referi não dou qualquer credibilidade à rapariguinha. Se for verdade acho que o Governo deve providenciar para que ninguém passe fome, artista ou qualquer outra pessoa.
Não dou credibilidade à rapariguinha porque ela não sabe o que diz. Desde logo porque confunde, à boa maneira salazarista, Lisboa com Portugal. No tempo da outra senhora é que se dizia que Portugal era Lisboa e o resto era paisagem. Tal anacronismo hoje é inadmissível. Portugal é um todo nação e não uma fracção, por maior que ela seja.
Não reconheço a uma rapariguinha eleita por pouco mais de trinta mil eleitores lisboetas e dos arredores que venha dar lições de cultura e de superioridade que, factualmente, não tem, não demonstra, bem pelo contrário. Cultura de um país, com quase um milénio é muito mais do que uma moda urbana. Parece que a senhora não sabe este pequeno pormenor que é um por(maior). Não sabe também que tourada é cultura. Tourada é modo de vida para muita gente e, só por esse facto, tem todo o direito a existir e a ser apoiada como qualquer outra actividade, cultural, empresarial, social.
Por outro lado, a senhora como eleita (ainda que por escasso número e por aleivosia da lei) deveria saber que deve por acima dos seus interesses e dos interesses do seu grupo de amigos o interesse nacional, porque é para isso que o contribuinte lhe paga um salário e benesses, que me atrevo a apostar, que na sua profissão anterior, se é que a teve, jamais auferiu.
Para terminar acho que o País e o Povo Português necessita de Leis que o catapultem para o desenvolvimento e o bem-estar que o liberte da subsidio-dependência e não estes casos arvorados em causas e cabe aos parlamentares preocuparem-se com causas. Com liberdade de escolha sem proibições tão caras ao PAN. Não sei se lembram de todas as proibições propostas por este partido sempre com ar de defesa de alguma coisa.
Quem não quer ir às touradas não vá. Faça como eu faço, não vou. Mas essa opção não me dá o direito de impedir quem gosta de o fazer. Portanto minha senhora cresça, tome juízo e não vista calças que não lhe servem ou, pelo menos, não lhe ficam bem.
Zé Rainho 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

ESTÓRIAS DE VIDA 15


A chegada a Luanda, dia 27 de Setembro foi uma festa. A minha família e os meus amigos fizeram questão de receber bem a minha mulher. Almoçámos em casa da minha tia Paulina, depois fomos fazer uma sesta porque passámos a noite no avião e não dormimos nada, como é natural.
À noite juntámo-nos com alguns amigos, fomos ao cinema e depois ainda demos uma volta pela Ilha tendo parado na Barracuda para beber um copo.
Toda a gente queria que a minha mulher não se sentisse deslocada. A JOC, no primeiro fim-de-semana que se seguiu à nossa chegada organizou um bailarico e uma pequena festa onde nos foi entregue uma prenda de casamento, um quadro grande de Jesus Cristo Ressuscitado que ainda existe cá em casa. Foram momentos de felicidade indescritível.
Iniciámos uma vida diferente. Uma vida a dois. Começámos por ir às compras para casa. Bens alimentares e outros. Não estávamos habituados. Nenhum de nós alguma vez o tinha feito e foi estranho. Andámos às aranhas, como costuma dizer-se. Mas, como em tudo na vida, aprendemos e foi mais uma peripécia de uma vida a dois.
Eu ia para o quartel às oito horas da manhã e a minha mulher ficava sozinha em casa. Tinha a sorte de ter uns tios meus que viviam nas proximidades o que lhe permitia ir até lá e passar melhor o tempo.
Quando regressava procurava mostrar-lhe a cidade. Metíamos no carro e dávamos uma volta.
Ao fim de quatro meses mudámos de casa. Fomos viver para um prédio de cinco andares com elevador numa das avenidas mais movimentadas da cidade, a Avenida Paiva Couceiro junto ao Complexo de S. Paulo, que incluía uma igreja, um colégio para meninas e a residência dos sacerdotes, franciscanos italianos.
Fomos viver para o quarto andar. No rés-do-chão havia comércio de tudo, desde um stand de automóveis até uma agência funerária, passando por um quiosque de jornais e mercearia onde nos podíamos abastecer de tudo.
A gravidez da Teresinha ia-se acentuando e desenvolvendo. Os meus pais, entretanto, tinha regressado de Portugal e, consequentemente, fazíamos-lhe visitas constantes.
A Teresinha passou a dar umas explicações para que uns adultos familiares e amigos se pudessem candidatar ao exame do 1º ciclo, assim se designava o segundo ano do liceu.
Em Janeiro de 1967, sabendo que passaria, durante o decorrer desse ano, à disponibilidade do serviço militar decidi meter as férias a que tinha direito, ou seja, os trinta dias de licença mais os cinco dia da alínea do Regulamento de Disciplina Militar.
Se a minha vida militar até me casar fora um mar de rosas, pouco tempo depois houve mudanças de chefias militares e, particularmente, o segundo comandante do Batalhão, um major que nem quero mencionar o nome, só me trouxe problemas.
Começou por querer revolucionar as instalações para as viaturas querendo como que expô-las como frota visível do exterior da vedação do quartel, que era em rede de arame até ao controle total dos boletins das mesma viaturas, controlando até a viatura do Comandante, Tenente Coronel Morais Leitão.
Queria que todos os condutores estivessem numa espécie de prevenção mesmo aqueles que não tinham tarefas atribuídas.
Ao mesmo tempo, não tinha pudor em mandar o seu motorista para sua casa ficando à ordem da sua mulher. A propósito disto não havia nenhum motorista que quisesse ser efectivo dele o que me causava alguns constrangimentos porque, cada um que ia para aquele serviço, passado poucos dias, dava baixa na enfermaria com hipotéticas doenças para não suportar o feitio miserável do major.
Um dia aparece-me o condutor (motorista) pálido, à minha frente, a pedir-me para o retirar daquele serviço. Preferia ser enviado para o mato. Estranhei tal pedido e pressionei para que me dissesse a razão que intuía ser de força maior. Depois de muita insistência o rapaz lá me disse o motivo. A mulher do comandante, uma trintona pouco assisada, aparece ao condutor em lingerie transparente a convidá-lo para entrar em casa e o rapaz não sabia o que fazer. Ficou atrapalhado desculpou-se como pode e fugiu para o quartel. Por um lado não queria atraiçoar o Major com medo das represálias, por outro não queria deixar a mulher ressabiada com a recusa de atraiçoar o marido e que ela se pudesse vingar de ser desfeiteada.
Talvez isso fosse do conhecimento do Major mas nós, rapazes de vinte e poucos anos é que não estávamos habituados a conviver com este tipo de situações.
O certo é que eu e o Major passámos a dar-nos com alguma frieza. O homem era muito egocêntrico e queria que toda a gente lhe dissesse amém.
Começou por me pedir opiniões para tudo e para nada só para ouvir a minha concordância. Quando tal não acontecia procurava argumentar e, com as suas ideias fixas, quando perguntava já tinha decidido levar a sua ideia avante. Percebendo esta atitude comecei por dizer a tudo que sim. Deixei de dar opiniões e limitei-me a dizer que sim a todas as barbaridades que ele cometia. Não se passou só comigo mas com todos aqueles que tinham que trabalhar directamente com ele como era o caso do primeiro-sargento da companhia o Vultos que, coincidentemente, era meu vizinho no prédio ao lado do meu e muitos outros. Não se dava bem nem com o comandante já se pode ver o tipo de pessoa.
Como era vingativo procurava sempre prejudicar-me chamando-me à hora de saída para qualquer tipo de conversa da treta, só para me reter no quartel entre outras coisas. O que quer dizer que a vida militar passou a ser um fardo.
Como disse atrás umas férias deste pesadelo calhavam-me e, por isso, meti o papel durante a primeira quinzena de Janeiro. O Vultos, homem dos seus quarenta anos, com experiência quando eu fui meter o papel disse-me: olha que não deves por a residência onde vives porque o Major é suficientemente cretino para ao fim de meia dúzia de dias te mandar chamar alegando que és imprescindível ao serviço. Põe que pretendes gozar as férias em todo o território de Angola e assim, se fores chamado não vens e ele não te pode castigar.
É evidente que segui as indicações de homem experiente e assim fiz. As férias foram autorizadas e assinadas pelo Major sem que tenha posto qualquer obstáculo. Como aconteceria a maior parte das vezes nem olhava para o que assinava e deixou passar sem qualquer objecção.
Dia 15 de Janeiro entrei de férias. Pegava na minha mulher íamos para a praia, vínhamos ao fim da manhã, dormíamos uma sesta e tudo se passava lindamente quando, ainda não tinham passado oito dias e eu regressava a casa vi uma viatura à entrada do meu prédio e, como é bom de ver, desconfiei que era para me chamar de regresso ao quartel.
Como os condutores todos eram meus subordinados e meus amigos, posso dizê-lo, encostei o carro ao jeep e perguntei ao condutor o que estava ali a fazer e confirmei as minhas desconfianças e a premonição do primeiro-sargento.
Disse ao rapaz para informar o Major que eu não estava em casa e, a partir daí, saía de manhã e só regressava à noite pelo que, as várias vezes que o Major me mandou chamar nunca ninguém me encontrou.
Quando terminei as férias dia vinte de Fevereiro apresentei-me ao Major e ele recebeu-me com três pedras na mão. Questionando-me: mandei-o chamar e você não se apresentou ao serviço pelo que o vou punir. Fingindo-me de ingénuo retruquei: como é que eu me poderia apresentar se eu nunca recebi nenhuma intimação, nem podia, já que gozei férias fora de Luanda?
Fora de Luanda? Quem o autorizou? Foi o meu Major. A licença foi assinada pelo meu Major. Olhou para o papel e ficou roxo. Irado disse-me retire-se. Vai ver o que lhe vai acontecer! A ameaça era latente. Mas todos os furriéis da minha incorporação já sabiam que o quartel-general tinha decidido que passássemos à disponibilidade no dia 31 de Março, consequentemente, pensei que pouco me poderia afectar a ameaça. Não foi bem assim.
Havia uma grande azáfama no quartel porque tinham chegado rádios novos com antenas especiais para melhorar a qualidade das comunicações militares no teatro de guerra em Angola e, enquanto eu estive de férias tinha sido constituída um grande equipa para ser distribuída pelo Leste de Angola para montar todo aquele equipamento novo mas, da qual, eu não fazia parte. Estava no fim do serviço militar obrigatório e nunca tinha sido mobilizado para o mato nem nunca tinha trabalhado com aquele tipo de equipamento logo, não era a pessoa competente para tal missão mas era a oportunidade ideal para o Major me castigar.
Passados dois ou três dias mandou-me chamar para me dar a ordem para me juntar à equipa constituída para ir para Henrique de Carvalho. A vingança serve-se fria e o Major era um tipo muito vingativo. Argumentei que não era a pessoa com competências para aquela missão. Mais, que estava para passar à disponibilidade e tinha emprego onde me devia apresentar a 1 de Abril e a missão tinha uma duração de cerca de três meses e, por essa razão, todos os graduados nomeados para a missão eram mais novos e tinham mais de um ano de serviço militar obrigatório. Eu seria a excepção. Incompreensível. Mas, como é evidente, anui porque na vida militar as ordens não se discutem. Apenas fiz uma advertência: meu major, como sabe sou casado, a minha mulher está grávida e eu tenho de me apresentar no local do meu emprego civil sem adiamentos. Se, por causa desta sua vingança eu perder o emprego garanto-lhe que estarei aqui no fim de cada mês a exigir-lhe o ordenado que vou deixar de ganhar. Esta advertência era uma ameaça velada que fazia questão de cumprir. Mais, fiz circular no meio, para que lhe fosse aos ouvidos, que lhe daria um tiro nos cornos. Mas o senhor parecia inflexível. Mandou-me requisitar a arma e deu-me uma guia para me apresentar na segunda-feira no aeroporto para embarcar para Henrique de Carvalho. Fiz tudo direitinho mas nunca tive ideia de ir. Já tinha decidido que me ia apresentar no Hospital militar com um pretensa dor na madrugada de segunda-feira. Mas, não foi preciso. No sábado pelas dezassete horas mandou um ordenança dizer-me que não havia lugar para mim no avião e que iria na segunda-feira seguinte.
A minha mulher sofria imenso com esta incerteza e sofreu até ao fim desde finais de Fevereiro até ao dia 31 de Março dia em que passei à “peluda” (disponibilidade). Sai da tropa nesse dia ficando-me um amargo de boca que, não fosse o despotismo de um idiota teria sido evitado.

sábado, 27 de junho de 2020

TRAIÇÃO


TRAIÇÃO!
Nada me causa mais repugnância que a traição. É um comportamento execrável e demonstra a baixeza de carácter de quem trai. Pior é, ainda, a reincidência. Neste caso é o vómito asqueroso, nojento, insuportável.
Isto é válido para todas as situações da vida. No trabalho, na relação conjugal, na relação social, na política, na religião, na amizade.
Há momentos em que a traição se manifesta com mais frequência e os caracteres mesquinhos e cobardes vêm ao de cima. Talvez por serem mais propícios ou mais perigosos, na óptica do traidor, já se vê. Em situação de guerra, por exemplo. O traidor, se em perigo, não se coíbe de denunciar companheiros, segredos, para salvar a putrefacta pele.
Outras situações são, igualmente, aproveitadas pelo traidor para consumar a sua traição. Quando a boa-fé de outrem os leve a julgar presa fácil, é outro bom exemplo. Mas há muitos mais.
Em comum há sempre duas condições basilares. A primeira é a falta de carácter, de princípios e de valores. A segunda é a cobardia e o desrespeito pelo outro ou por outrem.
Em época de pré-campanha eleitoral é frequente aparecerem os traidores, camaleões, desonestos com promessas de que desta vez é que vai ser. Que se estão a sacrificar em proveito do povo e por muita insistência e pressão das gentes a quem querem servir.
O traido/a cai na conversa porque, na sua boa-fé, julga que todo o ser humano tem direito a arrepender-se e a ser perdoado. Não há maior cego do que aquele que não quer ver e isso acontece com muito mais frequência do que seria desejável.
Neste desgraçado país destroçado pelos incêndios, pelo roubo de armas, pelo roubo do erário público, com condeções ou impunidades, os traidores, larápios e criminosos de toda a índole aproveitam esta época estival para lançarem as suas garras de ave de rapina para se sentarem à mesa do orçamento e continuarem a roubar o que é nosso. A falta de escrúpulos é tal que nem sequer têm em conta a memória dos seus concidadãos.
E não se diga que que tal é apanágio deste ou daquele partido, desta ou daquela organização, deste ou daquele dissidente, deste ou daquele independente.
Tenho para mim que quem se habitua a trair não olha a meios e aproveita todas as oportunidades para o fazer de novo, aos mesmos a ou outros, não importa. Está-lhe no sangue. Trai por índole. Por princípio e a todos sem olhar a quem. Os amigos, correlegionários, adversários e até cúmplices.
Se olharmos à nossa volta não precisamos de muita atenção para vermos, aqui e ali, os traidores a surgirem como cogumelos em época húmida.
Os traídos deixam-se ir e confiam, uma e outra vez, nestes abutres, escroques, cobardes, ladrões.
Assim é.
Zé Rainho

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Inconsciência


Inconsciência!!!

Não se conhecem os pormenores mas sabe-se, oficialmente, que há dois casos de covid-19 no concelho de Penamacor. Sabe-se, com um grau muito elevado de certeza que esses casos são da Meimoa. Especula-se que tais casos são de uns pais infectados pela filha, enfermeira, que veio de Lisboa depois de ter sido encerrado o serviço do IPO onde foram detectados vários casos positivos entre doentes e profissionais, local onde esta trabalha.
A mãe de família infectada é cancerosa ainda que não tenha muita idade. Anda na casa dos cinquenta anos. Certamente estará mais debilitada do que uma pessoa da sua idade cheia de saúde. A filha, enfermeira, não tem consciência desta fragilidade?
Para todos é muito difícil o período que estamos a viver. Nesta terra toda a gente mais nova teve de procurar outras geografias para fazer vida, já que aqui não há forma de se ganhar a vida ficando apenas os mais velhos. Logo, a ausência prolongada, de filhos e netos é extremamente dolorosa para todos. Para os próprios filhos e netos e, porventura, por menos capacidade de ultrapassar a saudade, para os pais e avós. É compreensível a ânsia de estar com os que mais amamos. A emoção dir-nos-ia que devíamos correr para os braços uns dos outros. A razão, o conhecimento científico impedem-nos de o fazermos porque o vírus é mortal, é muito contagioso e a ciência médica ainda não encontrou respostas mais adequadas do que aquelas que se traduzem no isolamento social.
Por tudo isto a atitude da jovem enfermeira só pode ser considerada irresponsável.
Oxalá não traga consequências, para já, inimagináveis, porque já trouxe algumas bastante preocupantes. Deixou de haver Missas em todo o concelho porque a senhora infectada almoçou com dois padres do nosso concelho no dia em que veio o resultado do teste e deu positivo. Os padres, de forma muito assisada, decidiram não celebrar missas no domingo já que o almoço decorreu no sábado.
A nossa população é extremamente envelhecida logo, muito vulnerável. Esperemos que a inconsciência de uma pessoa não se transforme numa tragédia para muitos.
Meimoa, 22 de Junho de 2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

PANDEMIA


PANDEMIA!
Em tempos de pandemia este interior profundo tem sido um oásis, um paraíso, sem casos, sem aflições excepção feita às contingências que a faixa etária elevada traz acoplada.
Desde 11 de Março que temos a lamentar a morte, por suicídio do Ti Herculano no passado Domingo de Páscoa, o AVC que deu ao José Tarrinha (Tan Tan) que, ainda hoje se encontra hospitalizado com prognóstico reservado e ontem a notícia de que o Domingos Brito (Pinta) estava infectado com o Covid-19, assintomático, em quarentena e confinamento na habitação.
Qualquer destes episódios é de um dramatismo incomensurável.
No primeiro caso o suicídio leva-nos a reflectir e a questionar sobre quanto seria o desespero para um homem com mais de noventa anos se suicidar por enforcamento. Quanta dor física e, porventura, espiritual deve ter assolado uma pessoa que era afável com toda a gente, vivia confortavelmente com a sua esposa de uma vida e que, aos olhos de todo o povo não teria razões para ter tomado tão drástica decisão. Acresce que, sozinho, preparou na sua adega todo o artefacto necessário ao enforcamento. Forte dor desespero, solidão. Só pode ter sido.
No segundo caso é um acontecimento próprio de um território desertificado. Não se vê ninguém, nem no povo, nem no campo. Está tudo velho e, consequentemente rareiam os contactos. O Zé foi para o campo sozinho. A sua esposa foi para a França para consultas e outras actividades relacionadas com filhos e netos. Ninguém teve conhecimento de que o Zé tinha ido trabalhar para o campo. Ninguém se apercebeu que faltou em casa para almoçar. Ninguém deu conta de que poderia estar a passar-se algo de anormal mas estava. Segundo se sabe por indicações clínicas deu-lhe um AVC logo pela manhã (nove horas) e esteve incontactável até ao anoitecer. Foram os filhos de França que ao fim do dia, desesperados por terem feito imensas chamadas não respondidas para o telemóvel do pai que decidiram telefonar a uma vizinha para tentarem saber o que se passava. A vizinha procurou no terreno onde sabia ser habitual o Zé ir com as ovelhas e deu com ele inconsciente e semi-paralisado do lado esquerdo. Chamou o INEM que o conduziu ao Hospital da Covilhã onde ficou internado desde há 15 dias.
Desespero é o da mulher e dos filhos que tiveram que pedir um documento ao Hospital para os deixarem atravessar as fronteiras de França, Espanha e Portugal que estavam e estão fechadas, devido à pandemia e agora são confrontados com o impedimento de visitar o seu doente. Apenas sabem dele através do telefone o que não é muito confortável mas, a segurança profiláctica assim o exige, Um problema complicado.
Ontem aparece a notícia de que havia um caso Covid-19 no concelho de Penamacor o que deixou toda a gente em alvoroço. Nunca se pensou ser possível. Era já noite quando se soube que o caso reportado era da Meimoa. Bastante mais tarde soube-se quem era.O Domingos é um doente com outras co morbilidades que tem tudo para um desfecho trágico. Tem graves problemas pulmonares, prostáticos, asma, psoríase entre outras.
Está confinado em casa mas não tem ninguém que o apoie. Vive sozinho. Só tem contactos com uma irmã que vive na Covilhã. Não sabe dos filhos nem dos netos. É viúvo. É um praticante da seita religiosa Jeová. Não se lhe conhecem pessoas de suporte. Não é assistido pelo Centro de Dia, por escolha própria. Não tem nenhum parente próximo que viva nesta aldeia. Só convive, pouco, com um pequeno grupo de ex-emigrantes que jogam a “petanca”. Este grupo vai fazer hoje, segundo se consta, o teste ao Covid-19. Espero que não seja mais uma desgraça.
 28 de Maio de 2020.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Humildade


A HUMILDADE

Neste dia de quinta-feira santa, dia em que Cristo nos deu a maior lição de humildade que pode haver no ser humano ao lavar os pés aos seus discípulos temos obrigação de reflectir sobre o assunto.
O egocêntrico tem razão de ser? É gratificante viver sem o outro? Não é solitário? Podíamos continuar a questionar o modo de vida nestes tempos. Mas basta pensar que temos vivido como se fossemos pequenos deuses. Tudo podemos. Tudo decidimos. Não olhamos aos sinais que nos têm sido dados nestes últimos tempos. Os furacões que tudo destroem. Os incêndios que ceifam vidas e deixam outras em suspenso porque levaram tudo o que foi construído durante décadas. Os sismos que tudo derrubam como se de castelos de cartas se tratasse e tantas outras catástrofes a que temos assistido impotentes e incapazes de lhes por termo.
Como a ciência humana se desenvolveu e continua a desenvolver rapidamente muito boa gente transfere o sentido de transcendência para a imanência científica. Temos aprendido muito pouco apesar da ciência.
Hoje podemos constatar que um ser não vivo desprezível, invisível mostrou, de repente que é capaz de derrubar um paradigma civilizacional em duas penadas.
Infecta, difunde-se, multiplica-se com a ajuda preciosa do hospedeiro e coloca o mundo da cabeça para os pés. É resistente o suficiente forte para matar sem piedade e arrasa com qualquer economia por mais poderosa que esta seja.
Dizem muitos estudiosos que vivemos uma situação de guerra sem inimigos visíveis e todos sabemos os malefícios de uma qualquer guerra. É a perda de vidas mas é também a carência de toda a ordem. Carência de saúde, mas também de alimentação e tudo aquilo a que nos habituamos a chamar bens essenciais. Passamos de uma vida de luxo e desperdício para uma vida de miséria e fome.
Vamos ver se, depois de passar esta calamidade, cada um de nós mas também os governantes do mundo inteiro tiram algumas ilações e lições para o futuro.
Vamos ver se sobressai a humildade para estabelecer pontes em vez de muros. Para criar modelos de sociedade onde ninguém fique para trás. Para que o coração se sobreponha à razão no que respeita aos bens materiais e as sociedades passem a ser mais solidárias, mais amigas do semelhante e da natureza.
Oxalá assim seja.
Meimoa 10 de Abril de 2020
Zé Rainho