sexta-feira, 10 de abril de 2020

HUMILDADE


A HUMILDADE

Neste dia de quinta-feira santa, dia em que Cristo nos deu a maior lição de humildade que pode haver no ser humano ao lavar os pés aos seus discípulos temos obrigação de reflectir sobre o assunto.
O egocêntrico tem razão de ser? É gratificante viver sem o outro? Não é solitário? Podíamos continuar a questionar o modo de vida nestes tempos. Mas basta pensar que temos vivido como se fossemos pequenos deuses. Tudo podemos. Tudo decidimos. Não olhamos aos sinais que nos têm sido dados nestes últimos tempos. Os furacões que tudo destroem. Os incêndios que ceifam vidas e deixam outras em suspenso porque levaram tudo o que foi construído durante décadas. Os sismos que tudo derrubam como se de castelos de cartas se tratasse e tantas outras catástrofes a que temos assistido impotentes e incapazes de lhes por termo.
Como a ciência humana se desenvolveu e continua a desenvolver rapidamente muito boa gente transfere o sentido de transcendência para a imanência científica. Temos aprendido muito pouco apesar da ciência.
Hoje podemos constatar que um ser não vivo desprezível, invisível mostrou, de repente que é capaz de derrubar um paradigma civilizacional em duas penadas.
Infecta, difunde-se, multiplica-se com a ajuda preciosa do hospedeiro e coloca o mundo da cabeça para os pés. É resistente o suficiente para matar sem piedade e arrasa com qualquer economia por mais poderosa que esta seja.
Dizem muitos estudiosos que vivemos uma situação de guerra sem inimigos visíveis e todos sabemos os malefícios de uma qualquer guerra. É a perda de vidas mas é também a carência de toda a ordem. Carência de saúde mas também de alimentação e tudo aquilo a que nos habituamos a chamar bens essenciais. Passamos de ima vida de luxo e desperdício para uma vida de miséria e fome.
Vamos ver se, depois de passar esta calamidade, cada um de nós mas também os governantes do mundo inteiro tiram algumas ilações e lições para o futuro.
Vamos ver se sobressai a humildade para estabelecer pontes em vez de muros. Para criar modelos de sociedade onde ninguém fique para trás. Para que o coração se sobreponha à razão no que respeita aos bens materiais e as sociedades passem a ser mais solidárias, mais amigas do semelhante e da natureza.
Oxalá assim seja.
Meimoa 10 de Abril de 2020
Zé Rainho  

QUINTA-FEIRA SANTA


QUINTA-FEIRA SANTA
Para os católicos a quinta-feira santa é um dia especialmente importante porque é neste dia que se comemora a Instituição da Eucaristia.
“Tomai e comei isto é o Meu Corpo, tomai e bebei isto é o Meu Sangue… fazei isto em memória de mim” disse Nosso Senhor Jesus Cristo quando se preparava a celebração da Páscoa em Jerusalém e foi com base nesta cerimónia que nos deixou a possibilidade de viver junto ao seu Corpo Vivo. Ao lado do Jesus Ressuscitado quando da consagração do pão e do vinho nas nossas Missas ao mesmo tempo que celebramos a instituição do sacerdócio.
Infelizmente, devido ao maldito vírus Covid-19, não nos podemos reunir em comunidade para dar início ao Tríduo Pascal com a cerimónia do lava-pés e a Eucaristia.
Vamos tentar, nesta reclusão forçada em casa, sem a companhia dos filhos, que estão impedidos de viajar, sair das suas residências por força do estado de emergência, viver em união com o nosso pároco, o nosso bispo, o nosso papa e todos os nossos irmãos em Cristo , este tempo favorável à conversão pedindo ao nosso Deus que alivie os que mais sofrem e nos livre a todos desta pandemia que virou o mundo da cabeça para os pés e nos deixa a vida suspensa.
Pedimos a Nosso Senhor Jesus Cristo, que tudo deu por amor à humanidade, que nos torne melhores seres humanos e que os ensinamentos que devemos tirar desta desgraça colectiva para fazermos deste mundo um local melhor para todos vivermos, para darmos mais valor ao ser do que ao ter, Que aprendamos com Cristo que o maior no reino dos céus é aquele que melhor serviu o irmão e mais humilde foi na sua vida terrena.
Meimoa 9 de Abril de 2020
Zé Rainho

RESTRIÇÕES


RESTRIÇÕES
Os dias passam devagar e, já lá vai um mês, confinados a quatro paredes. Os noticiários são deprimentes só com notícias que magoam. A falta de confiança nas informações dos dirigentes políticos acentua-se a cada dia que passa. As contradições que saltam à vista desarmada levam a esta descrença. Continuamos a ver Câmaras Municipais a substituir-se ao Estado Central nomeadamente à Direcção Geral de Saúde e ao respectivo Ministério adquirindo materiais para proteger as suas populações.
Os Lares de idosos, está a verificar-se agora, que são autênticos barris de pólvora que começam a explodir.
A quantidade de profissionais de saúde infectados com o Covid-19 é alarmante, já ultrapassa, em muito o milhar.
A não existência de medicamento curativo para a pandemia ou o desconhecimento de que alguns medicamentos existentes podem aliviar o drama começa a dar que pensar e a estabelecer alguma analogia com a falta de munições nas trincheiras de uma guerra convencional.
O amanhã não existe. O País está encerrado e não se sabe quando poderá reabrir. Nenhum responsável dá um sinal de esperança aos muitos que vão ficar sem emprego e sem sustento para si e para as suas famílias.
As restrições à liberdade individual são cada vez mais alargadas. Amanhã, dia 9 de Abril de 2020 entra-se no período em que ninguém pode sair do seu concelho de residência o que, no mínimo, é um absurdo.
A segurança e o confinamento social não passa, em nosso entender, por este tipo de medidas anacrónicas só entendíveis na mente de luminárias desta cultura urbana dominante. Basta analisar o que acontece nas grandes áreas metropolitanas mas também nas áreas rurais. Por exemplo, todos sabemos que a divisão concelhia é apenas uma linha existente no mapa e que não tem correspondência com a realidade. Senão vejamos: quem é que sabe onde acaba o concelho de Lisboa e começa o concelho de Oeiras, Loures ou Odivelas? Apenas os moradores devido às necessidades de contactar as instituições públicas estatais porque todas as outras não conseguem destrinçar se têm um pé num concelho ou noutro. Aqui pela nossa zona o caso não é muito diferente e compreende-se mal que um morador no Vale da Senhora da Póvoa ou no Meimão não possa ir ao Sabugal apesar de ser muito mais perto e económico do que vir à sede do seu concelho que é Penamacor.
A vida está difícil. Todas as restrições apresentadas são muito prejudiciais para os mais desprotegidos. Se olharmos para a Europa, à qual pertencemos de corpo inteiro o panorama não muda muito. Os ricos não querem ajudar os pobres esquecendo-se que, a prazo, poucos ou nenhuns produtos que produzem possam vender aos países mais pobres porque não haver dinheiro para tal e, consequentemente, não conseguirão escoar os produtos e ficarão mais pobres. As posições da Europa que todos pagamos como entidade supra nacional parece não existir.

terça-feira, 31 de março de 2020

Para Memória Futura


Memória futura
Hoje, 29 de Março de 2020, os números oficiais já mencionam 119 mortes devidas ao covid-19 e ainda a procissão não saiu do adro.
Há estudos arrepiantes que indicam a possibilidade de serem atingidas 100.000 mortes com esta pandemia.
Vivemos numa incerteza preocupante. O amanhã é uma incógnita. Os especialistas dizem que o mundo, quando acordar deste pesadelo, nunca mais será igual. Mas o Homem não tem tendências para aprender com os erros, principalmente se esses erros tiverem dinheiro pelo meio.
Nasci em plena guerra mundial e, em criança, observei as suas consequências em termos de miséria e carência de bens essenciais. De companheiros e amigos que não tinham um par de botas para calçarem. De sapatos nem se falava. Da senha de racionamento de alguns produtos alimentares que a minha terra não produzia. Da alimentação ser quase, exclusivamente, do que a terra dava e na altura em que dava. Quando se acabavam as batatas se comer apenas feijão-frade, quem o tinha.
Assisti a um desenvolvimento impensável nos meus tempos de menino. Constatei que o bem-estar trouxe muita irresponsabilidade, muito desperdício, muito egoísmo, muita falta de educação, de princípios e de valores. Mas, ingenuamente, pensei sempre que já não veria nenhum descalabro pois não se vislumbrava nenhum tipo de guerra mundial. Afinal vejo-me confrontado com esta pandemia que é uma verdadeira guerra com inimigo invisível e sem fim à vista.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pandemia

A pandemia do Covid-19 está a mudar as cores da vida a nível mundial e Portugal não é excepção. Temos constatado isso mesmo ao longo dos últimos dois meses mas hoje, dia 24 de Março de 2020, com a informação de que atingimos 43 mortos cerca de três mil infectados fica mais clara a raiz e a profundidade do problema.
O País está, literalmente, parado. As fronteiras, todas as fronteiras, terrestres, marítimas e aéreas estão fechadas. Estão as nossas e as da maioria dos países o que quer dizer que não há movimentação de pessoas. O território está, igualmente, fechado, espartilhado, condicionado. A maioria da população não pode sair de suas casas. Há oito dias que foi declarado o Estado de Emergência. O Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, no seu decreto presidencial declara que este Estado de Emergência não encerra a democracia mas, o que se sente na vida do dia-a-dia das pessoas é que a democracia também ficou fechada na casa de cada um.
Os filhos não podem ver os pais e os pais não podem ver e visitar os filhos e os netos. Já chegámos ao limite de não se poderem visitar os doentes internados nos mais diversos estabelecimentos de saúde ou de apoio social. Nem mesmo na morte se pode acompanhar os entes queridos que tenham falecido nesta época fatídica, independentemente de o falecimento ter sido por motivos da pandemia ou de outra doença qualquer.
Segundo o Governo a estratégia de ataque ao vírus vai ser alterada a partir das zero horas do dia 26 de Março. Não se sabe como é que essa estratégia vai ser concretizada. Não se sabe se há condições físicas. Se há recursos humanos e materiais suficientes para tal. A dúvida é legítima, pois há cerca de quinze dias que todas as consultas médicas das mais variadas especialidades foram canceladas no Serviço Nacional de Saúde mas também nas clínicas privadas, e agora, por decreto, vai tudo funcionar?
Por outro lado, impõe-se a pergunta: - Se é necessário tomar uma qualquer medida porque é que ela só tem efeito passados alguns dias depois de decretada? O vírus espera? Aconteceu isto quando foi decretado o encerramento das escolas e acontece agora em cada uma das medidas que é tomada a conta gotas.
Estamos muito apreensivos. Com o surto pandémico e com a paragem da produção nacional a todos os níveis. Agricultura, pesca, indústria, serviços, turismo e todas as actividades económicas. Temos sentido que, ano a ano temos vindo a empobrecer devido a políticas de governantes incompetentes e mesmo corruptos. Agora com esta desgraça apocalíptica que nos caiu em cima dificilmente nos livraremos de uma recessão que vai trazer mais miséria, mais fome, mais doença, mais morte.
Vamos, sempre que tivermos disposição, voltar a este assunto que deixamos aos que nos lêem mas também para memória futura de quem está a viver todas estas situações calamitosas.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A TEIA



Se nos lembrarmos da técnica e da qualidade da teia que a aranha faz, com seus fios viscosos, para apanhar as suas presas e associarmos à tecelagem de tecidos vemos que há laços, nós, fios condutores e secundários, que numa dança artística se entrelaçam para resultarem numa verdadeira obra de arte.
Se transpusermos esta figura de estilo para uma estrutura, um organismo, um clube, um partido político, uma religião e adicionarmos o conceito de enredo, de intriga, temos um caldo de condições para se desenvolver, até ao infinito, uma panóplia de situações e condições para o domínio, a submissão, o aprisionamento de pessoas, instituições e presas fáceis de aniquilar.
A sociedade portuguesa – muitos dirão, mundial – mas, na circunstância, interessa-nos aquela em que nos inserimos, que está mais perto de nós, que nos afecta mais directamente, encontra-se, de há umas três ou quatro décadas, envolvida numa teia de interesses, compadrios, corporações, quer políticas, quer profissionais, que aperta e sufoca sempre, mais e mais, todos aqueles que estão fora desses grupos e estrutura organizadas.
Quando essas teias são meticulosamente urdidas por gente sem escrúpulos, sem valores morais, sem princípios éticos, resultam não em obras de arte mas em emaranhados, que dificilmente se descobre o autor ou autores da TEIA.
E, como no exemplo da teia de aranha, quando mais a presa se debate – aqui as presas somos todos nós, cidadãos de bem, fora do guarda-chuva do poder – mais se enreda e mais aprisionada fica, esgotando suas forças, numa luta titânica, mas inglória, perante os fios e os laços que tudo podem e tudo corroem.
Assim nós nos encontramos. Vemos indivíduos que há quarenta anos não passavam de pés rapados, a viver no luxo, na vaidade, no esbanjamento, com propriedades, férias e ostentações diversas, desenterrando cofres abarrotados de dinheiro a cada pé de passada. Vemos donas de casa que, na generalidade da sua classe são as mais sacrificadas e as mais pobres dos pobres, com fortunas incalculáveis cujos números de milhões até custam a pronunciar. Vemos processos judiciais a prescrever deixando aos bandidos, corruptos, ladrões que, usurparam, roubaram, extorquíram, bens a pessoas e instituições, o produto do esbulho e nada lhes acontece.
Assistimos a corporações profissionais que, deontologicamente, tinham a obrigação de denunciar tropelias de tão alta envergadura, a entreter-nos com um qualquer tipo de vírus ou pequenas questiúnculas ou violência entre grupos marginais e de pequena marginalidade.
Damos conta de uma justiça que não funciona, que funciona mal, a destempo, parcial, cega, surda e muda perante tanta e tão gigantesca tropelia enquanto o povo morre na urgência de hospitais públicos, por falta de assistência ou é, pessimamente, tratado em macas nos corredores por falta de condições, espaços e profissionais.
Assistimos, incrédulos, a um constante aumento da dívida pública que todos nós, os nossos filhos e netos, teremos de mais cedo ou mais tarde, pagar e não se passa nada. Não há sobressalto. Não há inquietação.
Vemos, com regularidade e muita frequência, o abandalhamento, quando não mesmo de violência extrema, de profissionais pilares da sociedade, como é o caso dos professores, profissionais de saúde e até magistrados e não acontece coisa nenhuma.
Que sociedade é esta? Em que teia se deixou enredar? Será que consegue dela sair?