DEMOCRATA???
Este espaço pretende ser um local de comunicação com amigos e outros personagens que o queiram enriquecer com as suas ideias e sugestões.
domingo, 23 de abril de 2023
DEMOCRATA?
terça-feira, 21 de março de 2023
Disciplina
Disciplina!
Todas as sociedades têm regras que os cidadãos devem cumprir
para que as relações sociais sejam cordiais, mesmo, afectuosas. A estas regras
convencionou-se chamar disciplina e, quanto mais afinada esteja esta regra
geral mais coesão existe entre todos os membros da sociedade. Não é plausível
imaginar uma qualquer sociedade, associação, instituição ou mesmo família sem
esta regra de ouro.
Talvez por isso se ouça falar, frequentemente, em disciplina
orçamental porque, como é óbvio, ninguém pode gastar, mas do que o que tem, sem
que a sua vida económica se torne num caos.
Também no desporto se fala muito em disciplina para a equipa
funcionar como um todo, rumando ao mesmo objectivo que é, em última instância,
vencer.
Na escola a disciplina é da maior relevância, não só para o ensino-aprendizagem,
mas também para o normal funcionamento da instituição e, particularmente, para a
harmonia entre todos os que dela fazem parte. Ninguém imagina uma escola sem
disciplina porque isso seria o desrespeito total por todos os intervenientes e
o conflito inerente.
Nos governos a disciplina é regra fundamental como se
comprova sempre que a mesma falta. A indisciplina leva a conflitos entre os
ministros, a demissões, a remodelações. Esta consequência é mais notória do que
a da incompetência. Basta reavivar a memória para se concluir desta evidência.
É fácil intuir que, quanto mais responsabilidade social tem a
instituição, mais disciplina e coesão terá de haver. Parece-me inequívoca esta
ideia. Não se vislumbra o sucesso de um governo, de uma escola, de uma equipa
desportiva sem disciplina. Acontecem casos de indisciplina em todas estas instituições,
mas as consequências são sempre devastadoras. Quando um aluno não respeita um
professor ou vice-versa os resultados pretendidos ficam comprometidos. Quando
os alunos não se respeitam entre si o conflito extravasa da escola para as
famílias e a inquietação na escola sobrepõe-se à sua intrínseca função,
desviando o foco e o consequente resultado.
O que vale para a escola é válido para qualquer outro tipo de
instituição, associação ou organismo.
No momento os noticiários não deixam de nos trazer preocupações
acrescidas. Por um lado, é a indisciplina dos sistema bancário nos Estados
Unidos e na Suíça, pelo perigo de contágio ao restante mundo financeiro. Mas
também a indisciplina de um pequeno grupo de militares da Armada Portuguesa que
se recusou a cumprir uma missão de vigilância, a um navio russo, que navegava
próximo da zona marítima exclusiva nacional.
Ambos são motivos de muita preocupação. O primeiro porque
qualquer descalabro bancário afecta toda a sociedade contribuinte e
principalmente os mais desfavorecidos. Ainda está fresca a memória do último
resgate financeiro que tivemos e continuamos a ter de pagar aos nossos
credores, fruto de desvarios e indisciplina financeira do governo socrático. O
segundo, porque, tratando-se das forças armadas, instituição onde ninguém se
salva sozinho mas todos se salvam salvando-se, o risco de colapso e de morte é
extremamente elevado.
Nesta última instituição prevalece sempre o companheirismo e
a entreajuda sem os quais todas as “guerras” serão perdidas. Não se
compreendem, pois, por mais legítimas que sejam as razões, actos de
insubordinação, de recusa de missões. Esperemos que tenha sido um caso isolado
e que não passe daí, mas nós que já andamos cá há muitos anos, não nos
esquecemos do descalabro que foram os SUV (soldados unidos venceremos) e das
suas consequências paras as Forças Armadas e para todo o País e seu povo em
1974/75.
A Disciplina não existe só porque sim. Existe por necessidade
social para a convivialidade fraterna. A falta dela traz sempre consequências
nefastas. Veja-se o que acontece no trânsito automóvel e no número de mortes
que a indisciplina acarreta.
Disciplina precisa-se e exige-se em todos os sectores da
sociedade.
18/03/2023
Zé Rainho
terça-feira, 7 de março de 2023
80 Anos do Elvas
Homenagem ao meu caríssimo compadre,
colega e grande amigo, Professor FERNANDO ELVAS.
80 anos!
A bicicleta
que me transporta,
Na minha
vida, para lá da porta
Traz as
dores dos oitenta anos,
De caminho,
sucesso, desenganos.
Um percurso
de lisura e honradez,
De trabalho,
dedicação, sensatez,
Trouxe,
também, alguns escolhos,
Que fizeram
chorar meus olhos.
Mas no
balanço final, necessário,
Aparece o
saldo mais generoso,
Sentimento de
dever cumprido,
Por ter sido
demais perdulário,
Com a graça
do Deus poderoso,
Fazer o bem,
mesmo ao inimigo.
28/02/2023
Zé Rainho
domingo, 12 de fevereiro de 2023
MULHERES DA FAMÍLIA
Já falámos alguma coisa da nossa avó, mas seria imperdoável
não referir o papel das mulheres da nossa família de raiz, segunda geração. Nas
considerações que iremos produzir apenas vão constar percepções pessoais que,
se estiverem erradas, peço desde já desculpa às visadas.
Comecemos então pela mais velha, a Ti Joaquina. Foi uma
mulher que desempenhou todos os papéis que são possíveis desempenhar numa
família. Foi mãe, chefe de família, mãe e pai, decisora em última análise. Teve
um marido excepcional como ser humano, o Ti Manuel Augusto era uma jóia de
pessoa, mas quem ditava as leis naquela casa era ela, com o beneplácito do
marido e sem qualquer acrimónia.
Por ordem cronológica e, apesar de não vir da mesma raiz fez
parte integrante desta família, vem a minha mãe. Franzina, sempre muito doente,
apesar de ter um marido que, para o exterior, ser um durão ela é que dava os
dias santos lá em casa. Sempre se fez o que ela quis e a sua vontade prevaleceu
sempre sobre a vontade do meu pai. Tenho vários episódios que demonstram isso
mesmo, mas vou referir o mais significativo. O meu pai e o Ti Zé planearam ir
para a França nos finais da década de quarenta, inícios da década de cinquenta
do século passado. Iam a salto já se vê. Salazar não deixava ninguém emigrar
legalmente. Ainda andaram por terras de Espanha próximo de Cidudad Rodrigo.
Viram-se seguido pelos carabineiros e recearam as consequências. O Ti Zé foi o
primeiro a dizer para regressarem a casa para evitar a prisão, que era
inevitável se fossem apanhados. Falhada essa tentativa de emigração o Ti Zé vai
para Angola no ano de 1952 e, lá chegado, escreveu ao irmão para ir ter com
ele, sozinho, para preparar a ida da família no caso eu e a minha mãe. De
referir que o Ti Zé nessa altura ainda era solteiro. A minha mãe foi peremptória:
ou vamos todos ou não vai ninguém e não se vacilou um segundo. Decidiu-se que
íamos todos e assim foi.
A Ti Victória, era Maria Cerdeira de seu nome, mas, para
todos nós era a Ti Victória, fruto daqueles atropelos que já referimos quanto
ao registo das crianças. Veio mais tarde, casou por procuração com o Ti Zé e
quem a levou ao altar foi o Ti Chico. Era um doce, mas, enquanto jovem, muito
agarrada ao dinheiro e o Ti Zé, também com ar de duro, sempre lhe confiou toda
a gestão da casa. Tinha uma frase muito engraçada: uma vez que ela nunca
trabalhou fora de casa dizia com orgulho o Zé ganha-o, mas eu poupo-o. Foi
também uma boa mãe, boa esposa e tenho a certeza que fez o Ti Zé muito feliz,
criou duas filhas extraordinárias, a quem amava incondicionalmente, até se
começar a desenvolver a doença que a vitimou.
A Ti Isabel foi sempre a dona do pedaço. Muito amiga do Ti
Chico a quem amava, mas mandona. Foi uma boa esposa e muito boa mãe. O
Resultado é o Carlos que colheu o melhor dos dois progenitores. A bonomia do
pai e a garra da mãe. Entrou na família para fazer parte integrante dela.
A Ti Elisa é aquela mulher de armas. Ainda hoje entre nós,
com a bonita idade de quase 91 anos, sendo uma sofredora arranjou sempre forças
para lutar e progredir na vida. Na vida profissional atingiu o cargo de 1º
Oficial Administrativo da função pública, cargo a que muitos não almejavam,
tenda apenas a quarta classe. Na sua carreira profissional teve lugares de
muita relevância tanto na Administração como na Câmara Municipal e, com o seu
prestígio, ajudou muita gente, a começar pela família, a iniciar carreiras.
Nunca casou e, talvez por isso ou nem por isso, sempre se se dedicou aos
outros. A Eugénia, viveu em casa dela até se casar. A Ana Bela foi,
praticamente, criada por ela e o Luís, um pouco menos, mas também muito seu
protegido. Isto não quer dizer que ela não goste dos outros sobrinhos, pelo
contrário, mas foram as circunstâncias da vida que mais a aproximaram destes.
Eu, tenho a presunção de que sou um dos seus preferidos. Aliás eu tenho a
certeza de que tenho um lugar privilegiado no coração de todos os meus tios.
Fui encolado por todos. Andei à carapela de todos e cada um deles. Devo-lhes
muito e estou-lhes muito grato. A Ti Elisa ainda hoje é um exemplo para todos
nós.
A Tia Alice não é filha de sangue, mas era filha de coração.
Porque a infelicidade lhe bateu à porta demasiado cedo, perdeu os pais ainda na
infância foi recebida na casa dos avós por volta dos 14 anos, se não estou em
erro. Eu já me lembro. Tenho menos 6 anos que ela. Depois e, mais uma vez por
circunstâncias da vida casou com o Ti Quim e os laços familiares estreitaram-se
ainda mais. Constitui uma família onde, mais uma vez, ela é que dita as leis apesar
da pose do Ti Quim. E dita bem porque cria a harmonia num lar que dura há mais
de 65 anos. É também uma mulher de armas que conseguiu uma carreira sem
preparação prévia, mas com denodo e entusiasmo. Sendo uma mulher independente
sempre foi uma esposa, mãe de família.
A Ti Lurdes apareceu na nossa família de forma mais
inopinada. Natural de Lisboa foram os caminhos insondáveis que a aproximou do
Ti Tó. Foi a JOC o meio que os fez encontrar-se. Uma lutadora. Uma âncora para
o Ti Tó. Um incentivo para ele mesmo quando tinha que tratar meses a fio dos
três filhos sozinha, porque o tio vinha a Lisboa fazer exames para se
licenciar. A força de bloqueio aos desvarios do Ti Tó que sempre foi e é um
sonhador. Um homem excepcional de inteligência, sagacidade, mas demasiado
utópico. E é nessa utopia que sobressai a vontade e a tenacidade da Ti Lurdes
conseguindo o equilíbrio necessário a uma família feliz há 57 anos. Foi,
porventura, a que teve mais dificuldades de integração na família, mas, mesmo
assim, foi capaz de fazer da nossa a família dela.
Por fim a Tia Paulina. A mais alegre. A mais extrovertida.
Aquela a quem a vida deu a maior bofetada, mas, ainda assim, uma guerreira que
consegue encarar a vida da forma mais positiva que pode ter. Sempre foi um
pilar para a sua família. Sempre foi uma esposa, mãe e avó extraordinária. A
sua bonomia e acolhimento que dá aos outros é de uma generosidade fantástica. É
mais uma das grandes mulheres da nossa família, como todas, afinal.
20/10/2020
Zé Rainho
sábado, 11 de fevereiro de 2023
Dia da Língua Portuguesa!
DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA!
Há dias para tudo e mais alguma coisa e, também, há o dia da Língua Portuguesa que hoje se celebra.
A Língua, qualquer Língua, mas a nossa, em particular, não devia necessitar de um dia próprio, porque todos os dias deveriam ser de bem comunicar em português e todos os escreventes deveriam ter o maior respeito e a maior consideração pelo símbolo maior da nossa entidade como povo, a nossa Língua. Este sentimento concreto que nos irmana e nos torna distintos de todos os outros povos.
Nas actuais circunstâncias, em que o (des)acordo ortográfico traz para o quotidiano a maior das confusões e as maiores aberrações, talvez se justifique a celebração de um dia para ver se pensamos no valor da Língua, enquanto património nacional, que é de todos os falantes da Língua e não só dos portugueses e isso faça com que haja mais preocupação com os dizeres orais e, sobretudo, escritos.
São desculpáveis alguns erros por desconhecimento. São intoleráveis os erros propositados para o abastardamento da Língua.
Há dias vi uma publicação que anunciava uma parada LGBTI na Covilhã onde se apelava a todas e a todes, assim mesmo, todes, para participarem de modo a mostrar direitos inalienáveis, na opinião dos organizadores.
Sobre a organização e seus direitos prefiro não me pronunciar, mas sobre a Língua tenho algo a dizer, correndo o risco de me apelidarem de xenófobo.
Já me irrita, profundamente, esta nova moda do politicamente correcto, quando ouço discursos de responsáveis políticos começarem por “bom dia a todas e a todos” quando se referem a homens e mulheres, imaginem o que sinto com este abastardamento indefinido (todes) de nem uma coisa nem outra.
Acho este modo de dizer uma aberração. Igualizo-o aos pleonasmos frequentes de “subir para cima ou descer para baixo”, mas estes, felizmente, tais senhores, já não se atrevem a usar com receio de serem apelidados de ignorantes.
Ora todos, como se aprende na escola primária, é um adjectivo neutro, que serve ambos os géneros, masculino e feminino, porque significa inteiro e não parte de algo, logo sem necessidade da diferenciação que só tem lugar nas cabecinhas de alguns complexados com a paranóia igualitária de género.
Este afã da igualdade é, em minha modesta opinião, muitas vezes mais prejudicial aos interesses e à diferenciação de género do que o benefício que pretende atingir. Por isso valorizo mais a equidade do que a igualdade.
Haja equidade, dando a cada um segundo a sua necessidade e a sua potencialidade, e tudo o resto virá por acréscimo. No respeito mútuo. No respeito pela diferença, sem memorização de ninguém, quanto a direitos e deveres de todos.
Não é desrespeitando a Língua que se consegue mais igualdade de salário, de cargos dirigentes, para as mulheres. É, sim, por uma educação de qualidade acessível a todos, diferenciadora quanto às apetências e capacidades individuais, que conseguimos o tão falado e esperado estatuto igualitário independentemente do género.
Viva a Língua Portuguesa.
05/05/2022
Zé Rainho
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
O UNIVERSO!
A ciência demonstra, cada vez mais, que o planeta é uma
máquina com uma imensidão de peças, umas maiores e outras menores que, em
equilíbrio faz acontecer harmoniosamente a interligação e interdependência dos
diferentes ecossistemas, que num hino ao Criador, cantam hossanas à vida, a
todos os tipos de vida.
Quando alguma das peças se desregula a máquina estrebucha,
soluça com choro plangente e os ecossistemas entram em desestabilização quando
não, mesmo, em conflito e até confronto.
O Homem, peça muito importante desta máquina complexa, porque
tem a capacidade de interferir na arrumação e afinação, ou o contrário, das
restantes peças que compõe o sistema, na sua ânsia de poder, não mede as
consequências dos seus actos e, muitas vezes, cria o descalabro e a desgraça. No
seu afã de acumular dinheiro não olha a meios e fecha os olhos a princípios e
valores que deveriam nortear a sua postura e forma de agir.
Assistimos, na Turquia e na Síria a uma demonstração
inequívoca de como não se devem fazer determinadas coisas, como construções sem
acautelar o risco de sismo, por exemplo. Por esse mundo fora há muitos outros
exemplos de desgraças que, com facilitismo, se atribuem à Natureza, mas que tiveram
sempre por detrás mão humana. Vê-se nos sismos, mas também nas cheias, nos
incêndios e noutros tristes episódios que ceifam vidas inocentes.
No meio de tanta
desgraça, tanta morte e tanta destruição, aparecem imagens que nos elevam a
alma a outros patamares. Aquela criança que ainda trazia o cordão umbilical que
nos veio a chamar à atenção para o dom da vida, como documenta a fotografia que
circula na net. Não podemos deixar de perguntar a nós próprios: - Como é que
num cenário de horror e morte se pode nascer?
Haverá muitas explicações. Umas cientificamente sustentadas e
outras nem tanto. Porém, para os crentes num Deus Maior será fácil acreditar que,
a esse Deus, nada é impossível. Que, como o próprio Deus, feito homem, dizia, “Contudo, nenhum fio de cabelo da vossa
cabeça se perderá” (Lucas 21-18). Deus conhece cada um pelo seu nome, sabe tudo
sobre cada um mesmo antes de nascer.
Esta imagem da vida a irromper dos escombros e da morte levam-me
a questionar: -Será que os supra-sumos da política têm o direito de legislar
sobre quem deve morrer ou deve viver?
08/02/2023
Zé Rainho
domingo, 29 de janeiro de 2023
VELHO DO RESTELO!
Estejam descansados, os meus amigos, que não vamos falar de
literatura, não é que esta não seja importante e necessária, nos dias que
correm, mas deixamos isso para os mais entendidos.
Este personagem, magistralmente descrita pelo nosso poeta
maior, Camões, aparece quase sempre associada a duas formas distintas de ser e
estar na vida, consoante o analista.
Para uns, o velho do restelo é um homem prudente, cheio de
sabedoria, cauteloso e, sobretudo, parcimonioso na forma de gastar dinheiros
públicos. Para outros, é o medricas, o cobarde, o receoso, o invejoso, o
conservador, aquele que fica na zona de conforto e que não tem o arrojo de partir
à aventura. Para nós é um misto das duas coisas.
Quando tanto se fala da necessidade de empreendedorismo, para
não ficarmos na cauda da Europa; quando tanto precisamos de Vascos da Gama, sem
descartarmos a prudência do Velho do Restelo há polémicas que não passam disso
mesmo, polémicas.
Cada vez mais precisamos de arrojo, de coragem, de determinação,
tudo metido numa dose q.b. prudencial, para que a aventura não se transforme em
descalabro, para que o empreendimento não seja ruinoso, para que o passo não
seja maior do que a perna.
Vem isto a propósito de um tema que vejo matraqueado, em tudo
o que é órgão de comunicação social e, profusa e hipocritamente difundido nas
redes sociais, sem consistência, sem conhecimento, sem profundidade e com uma
imensa dose de demagogia, a infra-estrutura onde será celebrada missa pelo Papa
Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude.
Numa altura de dificuldades económicas para o país, qualquer
desperdício de dinheiros públicos é uma afronta. Afronta, que deveria ser
sempre e todos os dias, independentemente do tempo e das circunstâncias.
Dinheiro público é dinheiro de todos nós e, enquanto houver uma criança com
fome, um sem abrigo, um doente sem assistência médico-hospitalar, não deveria
ser gasto um tostão em mais nada que não fosse a satisfação das necessidades
básicas de toda a população. Assim, não se deveriam fazer rotundas, jardins,
iluminações natalícias, passadiços e outras obras que, embora necessárias e
dignas de apreço, não são imprescindíveis à vida. O mesmo se pode dizer para a
infra-estrutura que irá receber um dos pontos altos de um evento de nível
mundial.
Mas então, se não temos condições económicas para levar a
cabo este tipo de eventos, para que é que nos candidatámos a receber o mesmo,
num local onde não temos infra-estruturas para que ele se realize, com
dignidade?
Então porque é que vimos em 2019, quando do anúncio da
localização das JMJ, assistimos aos saltos entusiásticos, de então presidente
da Câmara de Lisboa e hoje ministro das Finanças Fernando Medina, do Presidente
da República com a voz embargada a dizer “ganhámos” e do regozijo do Primeiro-ministro
em tudo o que era televisão?
Não percebendo nada de obras não me pronuncio sobre se é caro
ou barato o empreendimento que se está a desenvolver na zona ribeirinha do
Tejo, mas posso dizer por conhecimento factual, que a zona determinada e
escolhida para o evento era, até há bem poucos meses, um aterro de lixo que
ninguém queria ver perpetuado, a começar pelo presidente da Câmara de Loures e
por todos os lisboetas e não só, por todos os que amam o rio Tejo e a sua
envolvência. E foram as Jornadas Mundiais da Juventude, patrocinadas pelas mais
altas individualidades da Igreja Católica nacional e Internacional que produziu
já, mesmo antes de se realizar, este milagre de requalificação ambiental de uma
zona, lastimavelmente, degradada durante décadas.
Como já referi, não sei se é caro, se é barato, sei que, já
que assumimos o compromisso perante o mundo, temos o dever de sairmos com
dignidade deste empreendimento.
Sei, também, que todo o dinheiro que se gaste e dou de barato
que seja muito, será sempre uma gota de água no oceano dos milhões enterrados
na TAP, (3,2 Mil Milhões), na EFACEC (10 Milhões por mês), no BPN (mais de
6.000 milhões), no BES (mais de 5.000 milhões), no Novo Banco (3.000 milhões), nos
lesados do BES (2,7 mil milhões), no litígio que o Sá Fernandes promoveu e que
obrigou a Câmara de Lisboa a pagar, mais de trinta milhões, pelo boicote que
tentou fazer quando da construção do túnel do Marquês e outos similares, sem
retorno e sem desígnio. Pelo menos aqui, ganha o meio ambiente e a natureza, se
mais não for.
Mas porque não quero parecer o velho do restelo invejoso e me
quero parecer mais com o Vasco da Gama tenho de lembrar a controvérsia invejosa
sobre a EXPO 98 e o benefício que esta trouxe à cidade de Lisboa e ao país, o
Centro Cultural de Belém, que passou a ser a sala de visita das altas
individualidades recebidas, em visita de Estado, no nosso País, para referir
apenas algumas mais relevantes e mais recentes.
Porque a Igreja católica se rege por princípios cristãos de
humildade, solidariedade a rondar a pobreza material, é fácil atirar-lhe à
cara, hipócrita e farisaicamente, qualquer tipo de extravagância ou espavento,
esquecendo que, não fossem as religiões e particularmente a religião católica, nunca
nos poderíamos deleitar com a visão monumental e arquitectónica de uma Basílica
da Sagrada Família de Barcelona, ou de um Mosteiro da Batalha em Portugal, para
dar apenas dois exemplos.
Estamos metidos num processo, deixemos que ele se conclua e,
no fim, façamos a avaliação do custo-benefício, já que não fomos capazes de
antecipar custos quando pedimos ao Papa que nos concedesse a honra e a ventura
de termos entre nós milhões de jovens de todo o mundo que, em muitos casos, vêm
acompanhados de familiares.
Deixemos de ser velhos do restelo medricas, cobardes,
invejosos, sejamos arrojados e corajosos como foram os nossos intrépidos
marinheiros.
28/01/2023
Zé Rainho