terça-feira, 31 de março de 2020

Para Memória Futura


Memória futura
Hoje, 29 de Março de 2020, os números oficiais já mencionam 119 mortes devidas ao covid-19 e ainda a procissão não saiu do adro.
Há estudos arrepiantes que indicam a possibilidade de serem atingidas 100.000 mortes com esta pandemia.
Vivemos numa incerteza preocupante. O amanhã é uma incógnita. Os especialistas dizem que o mundo, quando acordar deste pesadelo, nunca mais será igual. Mas o Homem não tem tendências para aprender com os erros, principalmente se esses erros tiverem dinheiro pelo meio.
Nasci em plena guerra mundial e, em criança, observei as suas consequências em termos de miséria e carência de bens essenciais. De companheiros e amigos que não tinham um par de botas para calçarem. De sapatos nem se falava. Da senha de racionamento de alguns produtos alimentares que a minha terra não produzia. Da alimentação ser quase, exclusivamente, do que a terra dava e na altura em que dava. Quando se acabavam as batatas se comer apenas feijão-frade, quem o tinha.
Assisti a um desenvolvimento impensável nos meus tempos de menino. Constatei que o bem-estar trouxe muita irresponsabilidade, muito desperdício, muito egoísmo, muita falta de educação, de princípios e de valores. Mas, ingenuamente, pensei sempre que já não veria nenhum descalabro pois não se vislumbrava nenhum tipo de guerra mundial. Afinal vejo-me confrontado com esta pandemia que é uma verdadeira guerra com inimigo invisível e sem fim à vista.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pandemia

A pandemia do Covid-19 está a mudar as cores da vida a nível mundial e Portugal não é excepção. Temos constatado isso mesmo ao longo dos últimos dois meses mas hoje, dia 24 de Março de 2020, com a informação de que atingimos 43 mortos cerca de três mil infectados fica mais clara a raiz e a profundidade do problema.
O País está, literalmente, parado. As fronteiras, todas as fronteiras, terrestres, marítimas e aéreas estão fechadas. Estão as nossas e as da maioria dos países o que quer dizer que não há movimentação de pessoas. O território está, igualmente, fechado, espartilhado, condicionado. A maioria da população não pode sair de suas casas. Há oito dias que foi declarado o Estado de Emergência. O Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, no seu decreto presidencial declara que este Estado de Emergência não encerra a democracia mas, o que se sente na vida do dia-a-dia das pessoas é que a democracia também ficou fechada na casa de cada um.
Os filhos não podem ver os pais e os pais não podem ver e visitar os filhos e os netos. Já chegámos ao limite de não se poderem visitar os doentes internados nos mais diversos estabelecimentos de saúde ou de apoio social. Nem mesmo na morte se pode acompanhar os entes queridos que tenham falecido nesta época fatídica, independentemente de o falecimento ter sido por motivos da pandemia ou de outra doença qualquer.
Segundo o Governo a estratégia de ataque ao vírus vai ser alterada a partir das zero horas do dia 26 de Março. Não se sabe como é que essa estratégia vai ser concretizada. Não se sabe se há condições físicas. Se há recursos humanos e materiais suficientes para tal. A dúvida é legítima, pois há cerca de quinze dias que todas as consultas médicas das mais variadas especialidades foram canceladas no Serviço Nacional de Saúde mas também nas clínicas privadas, e agora, por decreto, vai tudo funcionar?
Por outro lado, impõe-se a pergunta: - Se é necessário tomar uma qualquer medida porque é que ela só tem efeito passados alguns dias depois de decretada? O vírus espera? Aconteceu isto quando foi decretado o encerramento das escolas e acontece agora em cada uma das medidas que é tomada a conta gotas.
Estamos muito apreensivos. Com o surto pandémico e com a paragem da produção nacional a todos os níveis. Agricultura, pesca, indústria, serviços, turismo e todas as actividades económicas. Temos sentido que, ano a ano temos vindo a empobrecer devido a políticas de governantes incompetentes e mesmo corruptos. Agora com esta desgraça apocalíptica que nos caiu em cima dificilmente nos livraremos de uma recessão que vai trazer mais miséria, mais fome, mais doença, mais morte.
Vamos, sempre que tivermos disposição, voltar a este assunto que deixamos aos que nos lêem mas também para memória futura de quem está a viver todas estas situações calamitosas.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A TEIA



Se nos lembrarmos da técnica e da qualidade da teia que a aranha faz, com seus fios viscosos, para apanhar as suas presas e associarmos à tecelagem de tecidos vemos que há laços, nós, fios condutores e secundários, que numa dança artística se entrelaçam para resultarem numa verdadeira obra de arte.
Se transpusermos esta figura de estilo para uma estrutura, um organismo, um clube, um partido político, uma religião e adicionarmos o conceito de enredo, de intriga, temos um caldo de condições para se desenvolver, até ao infinito, uma panóplia de situações e condições para o domínio, a submissão, o aprisionamento de pessoas, instituições e presas fáceis de aniquilar.
A sociedade portuguesa – muitos dirão, mundial – mas, na circunstância, interessa-nos aquela em que nos inserimos, que está mais perto de nós, que nos afecta mais directamente, encontra-se, de há umas três ou quatro décadas, envolvida numa teia de interesses, compadrios, corporações, quer políticas, quer profissionais, que aperta e sufoca sempre, mais e mais, todos aqueles que estão fora desses grupos e estrutura organizadas.
Quando essas teias são meticulosamente urdidas por gente sem escrúpulos, sem valores morais, sem princípios éticos, resultam não em obras de arte mas em emaranhados, que dificilmente se descobre o autor ou autores da TEIA.
E, como no exemplo da teia de aranha, quando mais a presa se debate – aqui as presas somos todos nós, cidadãos de bem, fora do guarda-chuva do poder – mais se enreda e mais aprisionada fica, esgotando suas forças, numa luta titânica, mas inglória, perante os fios e os laços que tudo podem e tudo corroem.
Assim nós nos encontramos. Vemos indivíduos que há quarenta anos não passavam de pés rapados, a viver no luxo, na vaidade, no esbanjamento, com propriedades, férias e ostentações diversas, desenterrando cofres abarrotados de dinheiro a cada pé de passada. Vemos donas de casa que, na generalidade da sua classe são as mais sacrificadas e as mais pobres dos pobres, com fortunas incalculáveis cujos números de milhões até custam a pronunciar. Vemos processos judiciais a prescrever deixando aos bandidos, corruptos, ladrões que, usurparam, roubaram, extorquíram, bens a pessoas e instituições, o produto do esbulho e nada lhes acontece.
Assistimos a corporações profissionais que, deontologicamente, tinham a obrigação de denunciar tropelias de tão alta envergadura, a entreter-nos com um qualquer tipo de vírus ou pequenas questiúnculas ou violência entre grupos marginais e de pequena marginalidade.
Damos conta de uma justiça que não funciona, que funciona mal, a destempo, parcial, cega, surda e muda perante tanta e tão gigantesca tropelia enquanto o povo morre na urgência de hospitais públicos, por falta de assistência ou é, pessimamente, tratado em macas nos corredores por falta de condições, espaços e profissionais.
Assistimos, incrédulos, a um constante aumento da dívida pública que todos nós, os nossos filhos e netos, teremos de mais cedo ou mais tarde, pagar e não se passa nada. Não há sobressalto. Não há inquietação.
Vemos, com regularidade e muita frequência, o abandalhamento, quando não mesmo de violência extrema, de profissionais pilares da sociedade, como é o caso dos professores, profissionais de saúde e até magistrados e não acontece coisa nenhuma.
Que sociedade é esta? Em que teia se deixou enredar? Será que consegue dela sair?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Estórias de vida 13


A vida destes dois jovens, oriundos de uma aldeia do interior profundo, dum país a preto e branco, naquele mês de Abril de 1963, sem saberem bem o porquê, deu a guinada que iria marcar o futuro. Apesar de muito novos sabiam muito bem o que queriam para si e para a família que iriam constituir.
Desde logo, porque não eram dados a aventuras ou namoricos inconsequentes. Tinham no seu íntimo a nobreza de carácter que não permite brincadeiras com os sentimentos mais nobres e mais profundos do ser humano.
Desta feita foram estabelecendo a relação de amizade que iria permitir dar o passo em frente para uma relação mais comprometida entre um homem e uma mulher. Tal veio a oficializar-se em 4 de Agosto do mesmo ano, já depois da Teresinha ter efectuado os exames no Liceu da sede do distrito.
Foram tempos idílicos de enamoramento permanente.
Durante o dia acompanhava a Teresinha mais as suas irmãs até ao campo para recolher frutas, legumes para consumo da casa. Ia à fonte e aos poços – na época não se falava nem se sentia o fenómeno, poluição – buscar água, já que ainda não havia água canalizada em casa. A aldeia não dispunha de um sistema de saneamento básico.
À noite reunia-se a um grupo de amigos para, além dos “comes e bebes” saíam umas cantorias e umas guitarradas.
Dormia depressa, o mesmo é dizer pouco, como é próprio de quem está apaixonado. Lá diz o adágio popular: “duas horas dorme o estudante; três o amante; quatro o pastor; cinco o almocreve; seis quem tem a vida leve”... e, no caso, havia um amor abrasador, inquieto, delirante.
O mundo não existia para além destes seres que saboreavam com deleite o amor partilhado e, por isso, faziam planos.
As suas conversas eram, quase sempre, a projecção do futuro. Com o presente bem consolidado olhavam para futuro com alegria, ambição, esperança. Havia, porém, duas coisas que toldavam essa antecipação da felicidade. A primeira era a reserva que o pai da Teresinha tinha relativamente àquele namoro com a consequência, imediata, não a deixar continuar a estudar. A segunda era a, cada vez mais próxima e eminente, ida para a tropa do Rainho. Em tempo de guerra esse destino não deixava de trazer angústia, principalmente, para quem ficava e deixava de saber o que se passava com aqueles rapazes, a quem faltava vida e experiência para se confrontarem com tantos perigos e outras vicissitudes.
A separação que se antecipava era dolorosa e, por isso, era debatida entre os dois definindo estratégias que minimizassem o sofrimento que tal iria acarretar.
Os vinte anos dos rapazes daquele tempo era tempo de viragem e mudança de vida para quase todos. Inspecção militar, que dava quase sempre como resultado “apurado para todo o serviço militar” e ingresso no Serviço Militar Obrigatório que, na época, era muito longo e penoso para todos.
Verdade se diga que, também, trazia alguns benefícios no que respeita ao amadurecimento da personalidade, apuramento de valores como ética, disciplina, amizade, solidariedade e um sentimento de dever patriótico. Mas, em regra, trazia três ou quatro anos de suspensão da vida pessoal e profissional, para a maioria dos jovens do sexo masculino, da década de sessenta do século passado, para além do sacrifício, do risco da própria vida, com morte ou invalidez para muitos.
As guerras nunca trouxeram nada de bom, a não ser para os magnatas da armas ou para os que beneficiam da ruptura social que qualquer guerra traz consigo. A guerra colonial como, erradamente, muitos apelidam o conflito, foi a afirmação de uma nação que se queria una e que era entendida, pela maioria da população como tal, foi uma luta pelo poder de ideologias com pouco de confessável e muito menos de altruísta. Mobilizou mais de um milhão de mancebos portugueses de cor, etnia e territórios diversos.
No caso vertente o Rainho passou por todas as vicissitudes inerentes, com as angústias implícitas, os medos e as incertezas conexas.
Ilustra o facto de ter ido a um laboratório fotográfico tirar uma fotografia com seus pais pois, naturalmente, estes queriam ter uma recordação em imagem se acontecesse alguma desgraça.
Para o Rainho a ida para a tropa, assim se dizia corriqueiramente, fora encarada com a normalidade a que se vinha mentalizando desde os seus dezasseis anos de idade. Porém, agudizou-se a angústia pelo facto de se ver sozinho num ambiente diferente daquele em que fora criado com o fardo da saudade do seu amor e da impossibilidade de lhe escrever diariamente como estava habituado.
Na circunstância, esta mudança de vida, fora tão dolorosa quanto a ausência da sua amada com a qual desejava ardentemente contrair matrimónio o mais rapidamente possível a, tal ponto, que ainda durante o tempo de cumprimento do Serviço Militar levou a cabo o seu intento, ainda que fosse na fase final do mesmo. Casou-se em Setembro e passou à disponibilidade no dia trinta e um de Março do ano seguinte.
Daqui se infere que, ainda que não houvesse sofrimento físico, já que fora colocado num batalhão de armas de serviço especial, transmissões de engenharia e, por essa circunstância, tenha cumprido todo o tempo de militar na capital de Angola, Luanda, cidade sem conflito e com uma qualidade de vida excepcional, já não se pode dizer o mesmo do sofrimento emocional.
Como graduado que era, também recebia um soldo que lhe permitia manter uma qualidade de vida acima da média dos jovens do seu tempo.
Apesar de, passados muitos anos e recordar a boa experiência que foi a vida militar, vista à distância, também ressalta a ideia de que não se identificava com a vida militar. Foi convidado, talvez seja mais rigoroso dizer-se, foi pressionado a remeter-se a uma nova comissão com uma promoção imediata mas não era, de facto, aquilo que pretendia para si e para a família que pretendia constituir, o mais rapidamente possível e recusou, liminarmente, tal sugestão. Cumpriria se fosse obrigado. Dando um passo que fosse para que tal acontecesse, jamais.
Assim, ainda antes de terminar o tempo obrigatório resolveu casar-se. Não aguentava mais tempo longe do seu amor.
Aos vinte e dois anos, quase a completar os vinte e três, deu o passo que ambicionava dar desde os vinte e contraiu matrimónio cristão, católico, com a mulher que sempre considerou ser a única de toda a sua vida.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Estórias de vida 12


O ano de 1963 foi para o Rainho um ano de muita animação, alegria e mudança de vida.
Era o ano em que completaria vinte anos de idade e, consequentemente, se sujeitaria, obrigatoriamente, à inspecção militar como todos os rapazes da sua idade.
Em Fevereiro foi-lhe proposto ir à Metrópole, para participar no Grande Encontro da Juventude, para representar a JOC de Luanda. Para tal, o Movimento iria desenvolver actividades para angariação de fundos que permitisse custear as viagens e estadia de oito dias em Lisboa. Ficou de pensar no assunto e pensou.
Decidiu que iria solicitar à empresa onde trabalhava há cerca de seis anos que lhe concedesse a licença graciosa a que tinha direito, que era um dos benefícios concedidos aos trabalhadores com mais de cinco anos de serviço. Se a empresa aceitasse, naquele momento, abria-se a possibilidade de se deslocar a Lisboa sem custos para si e sem custos para o Movimento e permitiria que prolongasse a estadia por seis meses com o ordenado pago por inteiro.
Aceite esta solução pela empresa foi decidido, em tempo recorde, que o Rainho se deslocaria à Metrópole. Foi preciso comprar roupas adequadas ao frio já que em Luanda se passava o ano inteiro em mangas de camisa e, quanto muito, na estação do Cacimbo, com um muito ligeiro casaco de malha e, consequentemente, não dispunha de roupas quentes. Era necessário mandar fazer fatos completos para rechear a mala de viagem. Não havia pronto-a-vestir e fazer por medida levava o seu tempo. Uma correria, portanto.
No dia um de Abril, dia dedicado à mentira mas que, neste caso, infelizmente fora bem verdade, caiu uma borrasca de chuva que tudo levou à frente. A cidade de Luanda tinha crescido muito e muito depressa e, como diz o povo, “depressa e bem não há quem” com muitas lacunas e com um sistema de drenagem e até de saneamento básico muito rudimentar. Daí que a quantidade de água fora tanta que rompeu estradas e fez dela autênticos rios tumultuosos, muito caudalosos e destruidores de ruas, passeios, residências, casas comerciais, principalmente na Baixa de Luanda.
Também este episódio condicionou os últimos preparativos para a viagem do Rainho, como a compra de prendas para a família e outras coisas necessárias para uma estadia longa e distante.
Conseguiu-se uma viagem no navio Angola para o dia 3 de Abril. O evento em Lisboa realizava-se nos dias 19, 20 e 21 de Abril. A viagem demorava 11 dias. O Avião ainda não era um transporte muito usado e demasiado caro. Tudo se conjugava e se revelou como possível de concretizar porque a determinação era total.
O navio Angola, não sendo dos mais modernos da frota nacional, já tinha alguma qualidade e porte. O Rainho viajava em 2ª classe – de referir que ainda havia 3ª e 1ª classe – os bilhetes também custavam um valor diferenciado de acordo com estas classificações e as condições de alojamento eram, também, bastante diferentes, de acordo com a tipologia da classe em que se viajava.
Em segunda Classe havia camarotes de 2, 4 e 6 lugares, em primeira havia camarotes individuais e em terceira os dormitórios eram colectivos.
O mesmo se passava com as salas de jantar que também eram diferenciadas.
Mas o Rainho preocupava-se pouco com estes pormenores. Viajava com um outro sujeito bastante mais velho mas o tempo era passado na piscina a nadar ou nos espaços de lazer, a disputar torneios de ténis de mesa onde se safava bastante bem. E, como é bom de ver, a viagem correu maravilhosamente. Foram onze dias de puro lazer e divertimento.
Para quem, desde criança, só tinha tido tempo para trabalhar, no duro, era uma experiência incrível.
Dia 14 de Abril lá chegou ao cais da Rocha. Naquele ano o dia 14 de Abril era domingo de Páscoa. Dia de festa da família na aldeia mas que passava muito tenuemente despercebida na cidade grande.
 Esperava-o uma prima do pai que residia numa casa muito modesta no Campo de Santa Ana, onde com a boa vontade e hospitalidade característica da família sempre havia lugar para mais um.
Ali esteve durante cerca de dez dias. Os primos trabalhavam muito. Cada um tinha dois empregos. Ela, no Matadouro Municipal e de madrugada, entregava Jornais porta-a-porta. Ele, numa indústria de produtos químicos, principalmente detergentes e que, ainda mais cedo, ia à distribuidora dos Jornais para deixar um molho para ela e ele carregava com outro para territórios mais distantes para poupar a mulher a um esforço tão significativo. Tudo era feito a pé. Naquele tempo os transportes privados eram só para os ricos e os públicos eram caros e não davam a resposta necessária.
Esperava o evento que foi o primeiro motivo da sua vinda à Metrópole o Grande Encontro da Juventude, assim designado por ser um encontro de jovens de todo o país e que comungavam os ideais da Acção Católica portuguesa e mundial. Uma grande aposta do Papa João XXIII com o empenho total do cardeal patriarca de Lisboa.
O evento que sob o ponto de vista espiritual mas também de vivência e comprometimento social marcou a sua vida, indelevelmente, para sempre. Mas houve outro factor que foi o despoletar de todo o seu projecto de vida para futuro. Encontrou, reencontrou, como se queira, uma jovem lindíssima que se apoderou, de imediato e para sempre, do seu coração virginal.
Moça esbelta, olhos castanhos, tez morena, cabelo negro, longo, enrolado no cocuruto de forma artística, cintura fina, seios firmes e arredondados, pernas bens torneadas, sorriso franco e aberto, recato nas atitudes e comportamentos, porventura até um pouco tímida. Mas, muito mais do que estes atributos físicos que eram muito atraentes e cativantes, foi a sua pureza de sentimentos nobres e, igualmente, o seu coração virginal que prendeu, com amarras indestrutíveis, o coração do nosso jovem.
Falou-se em reencontro porque, de facto, tinham sido colegas na escola primária, no ano em que fizeram a quarta classe. O primeiro ano de uma turma mista, na aldeia da naturalidade, quando tinham dez anos de idade e nunca mais se tinham visto, desde a partida do Rainho para a África.
A Teresinha, assim se chamava a jovem tinha, entretanto, ido estudar para um colégio privado, com sede no concelho da sua residência e ingressado também num Movimento da Acção Católica designado por JEC (Juventude Estudantil Católica) e essa circunstância também a encaminhou para o evento juvenil que mobilizou milhares de jovens em todo o país.
A vida nem sempre é o que queremos mas é aquilo em que se transforma por circunstâncias, mais ou menos fortuitas, e um evento que seria um sacrifício pessoal no seu início, veio a revelar-se como um desígnio de felicidade para todo um futuro.  

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Estórias de vida 11


Enquanto isso o Rainho mudara de novo para a Robert Hudson e ingressara num Movimento Católico já que a Acção Católica, também naquele tempo se desenvolveu e se incrementou, muito fruto do Concílio Vaticano II.
O rapaz ingressou na JOC (Juventude Operária Católica), verdadeira e autêntica escola de vida, de solidariedade, de amizade e de consciencialização pessoal, política e social.
Crescia, aprendia, estabelecia redes de amizades, conhecia pessoas diferentes do seu mundo até aí.
Apaixonou-se de tal forma pelo Movimento que, apesar do muito trabalho diário constituído por trabalho e estudo nocturno, não deixava de, nos domingos, ir às seis horas da manhã à primeira missa da sua paróquia para depois poder prosseguir com as tarefas inerentes à militância jocista, como era a venda do Jornal Operário, a visita aos doentes do Hospital, as reuniões sistemáticas e sistematizadas através do Método introduzido pelo Cardijn “RVO – Revisão de Vida Operária” onde se avaliava a semana passada e se projectava a semana seguinte.
Tudo isto era feito sem prejuízo de uma vida social intensa onde o Cinema tinha um papel importante. A leitura dos clássicos era também uma tarefa obrigatória mas muito atractiva. As récitas e as festas na sede da JOC onde se congregavam jovens e as respectivas famílias já que o respeito existente atraía sem dificuldades pais e mães de jovens, principalmente das raparigas, que ali se sentiam protegidas e se podiam divertir sem correr riscos.
No trabalho as coisas também corriam bem. O Rainho viu, sem que o previsse, o seu trabalho reconhecido e compensado.
De um dia para o outro tudo mudou.
O Engenheiro Inglês, Senhor Pelikington, responsável pelo comércio de máquinas, sua instalação e manutenção, homem rigoroso, muito sabedor, mas também muito humano, entendeu que o melhor auxiliar que podia ter nessa tarefa era o nosso rapaz, agora com dezassete anos de idade e com um capital de experiência acima da média. Desta feita fez-lhe a proposta nestes termos:
“Olha Rainho eu preciso de um jovem que me ajude na implementação e desenvolvimento de um projecto que tenho na empresa que se traduz, sinteticamente, na reparação das bombas injectoras e injectores dos veículos a gasóleo que, como tu sabes, vendemos muitos nos últimos meses e anos, e já comprei uma máquina com tecnologia de ponta para afinar essas peças de precisão, que são o coração dos motores a diesel. Preciso que me ajudes nesse trabalho que é de grande responsabilidade e rigor. Para tal já mandei fazer as obras necessárias à instalação de um laboratório que ficará todo envidraçado e revestido a azulejo. Naquele laboratório só entrarás tu e eu. É vedado o acesso a qualquer outra pessoa incluindo o chefe da oficina. Só respondes perante mim com o teu desempenho. As instruções vêm em inglês e, qualquer dúvida na reparação e afinação consultas os manuais que te vou facultar e perguntas-me sempre que tiveres dúvidas. Vais passar a ganhar ao mês e ganharás dois mil escudos”.
Perante esta imensa responsabilidade o Rainho sentiu-se acanhado, intimidado, preocupado com eventuais ciúmes que poderia causar a colegas mais velhos e superiores, mas agradou-lhe sobremaneira o aumento significativo que iria receber e o estatuto que iria ter dentro da empresa ao depender apenas de um dos administradores mais importantes e, por isso mesmo ainda disse: “Senhor engenheiro eu domino mal a língua inglesa que, como o senhor sabe, só comecei a aprender há três anos e com muito poucas aulas por semana e, por isso, tenho receio de não ser capaz de corresponder às expectativas que o senhor engenheiro tem acerca de mim”. O Engenheiro respondeu rapidamente: “com isso não te preocupes. Eu sei do que és capaz e estou aqui sempre para tirar qualquer dúvida que tenhas. Com isso não te preocupes. Para além do mais eu, no início passarei por aqui todos os dias e, quando tu tiveres mais confiança em ti próprio, passarei a vir só quando for preciso. Há mais uma coisa. Estamos a importar do Reino Unido, da Alemanha e da América algumas máquinas para lavandarias, para fábricas de batatas fritas e outras indústrias que eu quero que tu acompanhes a respectiva instalação. Para isso vais escolher uma equipa de três pessoas da tua confiança e vais orientá-los nesse tipo de trabalho com a minha supervisão, ok?”.
O Rainho passou pelos momentos mais empolgantes da sua vida. Aceitou sem rebuço e começou, desde logo, a ler toda a documentação fornecida mesmo antes de o laboratório estar concluído. Deixou de usar fato-macaco e passou a usar calças, camisa e sapatos, facto que, como previra, causou alguma inveja àquelas pessoas cuja índole e carácter são propícios a sentimentos mesquinhos. Nesse pequeno grupo estava incluído o chefe da oficina que nunca gostara muito do Rainho e que com esta promoção se sentiu desautorizado e mais dois colegas, um mecânico e outro bate-chapas que nunca morreram de amores por si. Mas, em abono da verdade deve dizer-se que a maioria dos colegas e principalmente o sub-chefe da oficina, o Senhor Marques, grande amigo do Rainho e, porventura, a pessoa que informou o senhor engenheiro Pelikington, das capacidades deste, ficaram felizes e orgulhosos de verem o amigo a singrar de forma tão fulgurante na empresa que, de dia para dia, também crescia a olhos vistos.
A Empresa sempre foi uma referência da década de 20, do século passado, mas sofreu grande incremento e espalhou-se por toda a Angola no final da década de 50 e princípio da década de 60.
O Rainho sentiu, com aquele incentivo, que deveria ser mais estudioso, mais aplicado e muito mais responsável do que fora até aí apesar de ter sido sempre um trabalhador exemplar.
Deixou de ter tempo para alguns dos passatempos de que usufruía mas, por outro lado, viu crescer em todos os seus amigos, mesmo os não colegas de trabalho, a sua admiração o que fez com que cada vez mais se aplicasse nas diferentes aprendizagens que a vida lhe estava a proporcionar e a amadurecer para a vida ainda de forma mais rápida. Sendo um jovem de apenas dezassete anos era, todavia, um adulto que passou a ser solicitado para dar a sua opinião sob muitos aspectos da vida.
Desde logo o seu pai que o consultava sobre a vida familiar. A dar-lhe toda a liberdade entregando-lhe uma chave de casa para poder entrar e sair sem ter de pedir autorização, apenas com a recomendação de ter cuidado com os perigos da cidade que começava a ser grande demais.
Também os tios e, sobretudo, os seus companheiros de trabalho e da JOC que, cada vez mais, o solicitavam como confidente de todo o tipo de preocupações.
 Decorria o ano de 1958 e, como se está a contar a história de vida do Rainho, bem se pode dizer que todas as décadas seguintes foram marcantes.
Não nos apressemos. Já lá vamos.
O ano de cinquenta e oito foi um ano agitado sob o ponto de vista político. Houve eleições presidenciais, coisa rara desde a aprovação da Constituição de 1933 e do poder absoluto do homem do leme, que era o Presidente do Conselho, Professor Doutor Oliveira Salazar. Com ele presidiu o General Carmona até à morte deste. Também o General Craveiro Lopes que, segundo alguns rumores, nunca se dispôs a ser seu pau mandado pelo que, depois de terminar o mandato foi substituído pelo Almirante Américo Tomaz.
Neste ano, na sequência de alguma movimentação política com o MUD e o MDPCDE, partidos políticos organizados mas sem representação popular e com o PCP na clandestinidade, lá se deram passos para que houvesse eleições, ditas, livres podendo candidatar-se mais do que um candidato.
Desde logo o Candidato do Regime, Américo Tomaz apoiado pela União Nacional, partido único de então e o demais poder instituído.
Apoiado pelos movimentos políticos mais liberais também apareceu o General Humberto Delgado que, num arroubo de valentia, a uma pergunta de um jornalista sobre o que faria ao Dr. Salazar se fosse eleito, lhe saiu a frase assassina que lhe ditou a derrota naquele momento, apesar da onda de apoio popular que vinha sentindo em todo o país. Eis a frase: “obviamente, demito-o”.
Ainda houve um outro candidato, na circunstância um civil, de seu nome Arlindo Vicente, muito conotado com o comunismo internacional que, por não ter sentido o apoio que julgava poder vir a obter do povo, desistiu à boca da urna. Foi eleito, como era previsto, num regime sem liberdades, o candidato do Regime, o Almirante.
A Campanha eleitoral foi interessante sob todos os pontos de vista e até proporcionou, aos mais atentos, algumas lições. Desde logo com as palavras-chave dos candidatos. Os da oposição ao regime não tinham acesso à rádio e aos jornais, já o candidato do regime tinha até direito a cartazes informativos. Este candidato não dizia ao que vinha mas apontava as consequências se algum dos outros fosse eleito. Então sobressaiam as seguintes frases: “quereis perder Angola votai no Arlindo Vicente”; “quereis a desordem e a anarquia, votai no Humberto Delgado”; “quereis continuar da senda da paz, progresso e bem-estar, votai no Almirante Américo Tomaz”. Curiosidades.
O Rainho ia tomando a consciência política e de ordem social, quer pelos factos narrados, quer pelos ensinamentos aprendidos na JOC. Concluindo, sem rebuço, de que só poderia aceder ao elevador social e melhorar a sua condição de vida se, cumulativamente, com a aprendizagem profissional aumentasse os conhecimentos académicos e respectiva certificação.
Enveredou então pelo ensino liceal por se coadunar melhor com o seu interesse. Mas o Liceu ainda não ministrava ensino nocturno, pelo que teve de se socorrer do ensino privado pagando mensalidades algo pesadas para fazer as aprendizagens necessárias para se poder propor a exame e obter resultados, como é bom de ver. Sim, naquele tempo, ou se mostrava o que se sabia ou ficava-se pelo caminho.
Mesmo assim valeu a pena porque num só ano conseguiu fazer aprendizagens que lhe permitiram candidatar-se, como aluno externo e maior, a fazer exame do 2º ano, no Liceu Salvador Correia de Sá e Benevides, em Luanda tendo ficado aprovado.
A consciência de que seria necessário ir mais longe levou-o a frequentar a secção de Letras do 5º ano. Naquele tempo o ensino Liceal era composto pelo primeiro, segundo e terceiro ciclos, sendo que o primeiro correspondia ao 2º ano, o segundo ao 5º e o terceiro ao 7º ano. No segundo ciclo havia a possibilidade de fazer exame a Letras e a Ciências de forma conjunta ou separada e no terceiro ciclo era disciplina a disciplina sendo que se podia fazer todas ou uma de uma vez.
Mais um ano de estudo e a candidatura à secção de Letras do segundo ciclo e também aqui obteve aprovação. Tal feito mereceu o elogio de colegas e amigos e até houve alguns amigos que decidiram enveredar pelo mesmo caminho.
Entretanto chegámos ao ano de 1961 e, logo no início, mais precisamente em 4 de Fevereiro eclode uma pequena revolta na Casa da Reclusão – assim chamada a penitenciária que albergava militares castigados por infracção às leis militares e alguns civis punidos por crimes comuns – da qual resultaram uma dezena de mortos entre os militares da ordem pública e os revoltosos. A história veio a demonstrar que se iniciou, naquele dia, aquela que viria a ser a designada a guerra colonial, que durou cerca de catorze anos e provocou alguns milhares de mortos de um lado e do outro da contenda.
Aquilo que pareceu uma derrocada para quem vivia em Angola, principalmente, depois dos ataques terroristas do Úcua, onde chacinaram homens, mulheres e crianças, brancos, negros e mulatos, à catanada, com violações e castrações hediondas e com manifestações canibalescas indescritíveis veio, no imediato, a revelar-se como o arranque do desenvolvimento daquele território, há cerca de quinhentos anos, em perfeita estagnação.
Uma evidência era o facto de, haver em toda a Angola, uma estrada alcatroada com, apenas, sessenta quilómetros de distância, fora das cidades. A Estrada Luanda Catete. Depois de 1961 e até 1968 todas as capitais de distrito foram ligadas pelo asfalto incluindo nestas estradas a célebre serra da gleba a mais acidentada de toda a Angola e, segundo se dizia, cada quilómetro custou mil contos.
Passou-se de um território onde era extremamente difícil arranjar emprego a emprego pleno. À construção de escolas e hospitais para todos, para além do apetrechamento dos portos marítimos e do desenvolvimento de aeroportos internacionais ou aeródromos locais com pistas alcatroadas e iluminadas.
As infraestruturas de saneamento básico em todas as cidades e vilas com especial relevo para Luanda onde fizeram adutores para águas pluviais que obviaram às derrocadas tendo sido a última, de grandes dimensões, nos últimos dias de Março e primeiros dias de Abril de 1963.
Assim, apesar da guerra, com a chegada maciça de militares da Metrópole, Angola desenvolvia-se a olhos vistos.
Havendo focos de instabilidade a Norte do país, com mortes e outros malefícios de qualquer guerra, nem por isso se vivia com medos, particularmente, nos centros urbanos, nomeadamente em Luanda.
Pode até dizer-se que era época áurea de progresso de bem-estar de vida feliz para todos, brancos e negros. Porque havia a política de não discriminação houve até uma maior e mais acentuada integração de negros no Estado, através dos diferentes tipos de Administração, escolaridade obrigatória para todos e escolas espalhadas por todo o lado incluindo os musseques.
Até se criou a Universidade com a maioria dos cursos disponíveis, incluindo medicina, o que permitiu à classe média por os seus filhos a estudar, de forma muito natural, prosseguindo estudos, porque já não havia a necessidade de os enviar para a Metrópole com os consequentes custos económicos e emocionais.