terça-feira, 14 de maio de 2024

PARLAMENTO EUROPEU

 


O Parlamento Europeu está sedeado em Estrasburgo, França, tendo mais dois locais de trabalho. Um em Bruxelas e outro no Luxemburgo.

As reuniões mensais realizam-se em Estrasburgo, as comissões parlamentares especializadas reúnem-se em Bruxelas e os serviços administrativos ficam sedeados no Luxemburgo.

Trabalhei quase vinte anos numa instituição com serviços dispersos por vários edifícios na mesma cidade e os problemas funcionais eram mais que muitos.

Concentrados todos os serviços no mesmo edifício a optimização de recursos foi assinalável. Desde logo deixaram de ser necessários os estafetas que calcorreavam a cidade com protocolos de documentos. Uma só central telefónica com apenas duas telefonistas. Concentração de viaturas o que minimizou as despesas com transportes próprios. Mas, o principal ganho foi a facilidade de comunicação entre os diferentes departamentos e a optimização dos respectivos recursos humanos e materiais.

Devido a esta experiência profissional custa-me a compreender o porquê desta dispersão dos locais de funcionamento do Parlamento Europeu.

Quanto aos custos não será difícil imaginar a sua proporção com viagens dos deputados e funcionários, respectivas ajudas de custo, para não falar nos custos das diferentes instalações e respectiva manutenção.

Já assisti a várias eleições para o Parlamento Europeu e nunca ouvi ninguém, candidato a deputado, líder partidário ou governo que explicasse ao eleitor esta dispersão e respectivas consequências. Se calhar não é importante? Não são os contribuintes europeus que pagam a factura?

Há anos estive no local de trabalho onde passam a maior parte do tempo os deputados do Parlamento Europeu, em Bruxelas, e tive a oportunidade de falar com um funcionário que ali prestava serviço há vários anos. Questionei-o sobre vários assuntos e as respostas foram verdadeiramente interessantes. Para não maçar muito conto-vos apenas uma pequena efabulação que o dito funcionário me relatou.

Perdoem-me, mas antes de continuar, deixem-me avisar que o Parlamento Europeu não legisla, mas toma decisões.

Seguindo para a história disse-me o funcionário que qualquer decisão que requeresse voto unânime, necessitava de, pelo menos, dois anos para ser aprovada.

Qualquer diploma legislativo que requeira unanimidade só pode ir à votação após oito semanas depois do envio aos respectivos parlamentos nacionais para apreciação.

A seguir é preciso obter o consenso dos diferentes países que fazem parte da União Europeia. Depois há que conciliar pontos de vista das diferentes correntes políticas representadas no Parlamento.

Enfim, o Parlamento Europeu toma as decisões sobre a legislação da União Europeia em conjunto com o Conselho da União Europeia. Se o Parlamento e o Conselho não chegarem a acordo sobre um acto legislativo não haverá legislação. Confuso?

Talvez por isso se fale muito em desunião da União Europeia em muitos aspectos da vida dos europeus e também da política externa.

Posto isto não valeria a pena virem os Governantes, os Partidos Políticos e os candidatos a deputados elucidar as pessoas para que se motivem para as eleições e depois votem em consciência?

Não nos esquecemos de que muito do que se passa nas nossas vidas se decide em Bruxelas, Estrasburgo ou Luxemburgo.

Já agora vamos lá exercer o direito de voto que, ao mesmo tempo, é um dever cívico de qualquer europeu.

10/05/2024

Zé Rainho

 

 

 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Meio Século Democrático!

 

50 Anos de Abril

Ex.mo Senhor Presidente da Junta de Freguesia, Senhores membros da Assembleia de Freguesia, Academia Sénior de Penamacor, Professor Eduardo Geraldes, Minhas Senhoras e meus Senhores muito boa tarde.

Comemoramos hoje o 25 de Abril de 1974 – se não tivesse acontecido não poderíamos estar aqui reunidos sem sermos incomodados. Meio século do novo regime político em Portugal. Marco histórico.

Pediram-me para vir falar deste marco. Porventura muitos de vós sabem mais disso do que eu, mas não podia recusar este convite. Porque aos amigos diz-se sempre SIM, razão pela qual estou aqui.

Um ponto prévio: não sou político, nunca fui político, não quero ser político e por isso não esperem a narrativa vulgar desta efeméride que é feita por políticos.

Vamos fazer um pequeno enquadramento histórico do país e do regime anterior para depois falarmos do 25 de Abril.

Antes (24 de Abril de 1974) vivíamos num país, rural, ruralizado, analfabeto, cinzento, farto de guerra, onde o trabalhador rural, que era a maioria da população, trabalhava de sol a sol por uma côdea de pão. Aqui, nos nossos meios, toda a gente tinha uma “leirita” de terra que ajudava, com muito trabalho, ao sustento da família, mas no Alentejo, onde os latifúndios eram e são a maioria da propriedade quem vivia do seu trabalho passava muito mal, para não dizer que passava fome.

Estávamos orgulhosamente sós como dizia Salazar. Não tínhamos relações diplomáticas com a maior parte dos países de África, Ásia e do Leste Europeu. Portugal era ostracizado pela maior parte dos membros da ONU.

Sustentávamos uma guerra que durava há treze anos, com alguns milhares de mortos e muitos estropiados. Lembramos um desses feridos aqui desta terra, o Carrilho, que foi presidente da Junta.

Uma Polícia política que era um verdadeiro Estado dentro do Estado com podres ilimitados e que funcionava mais por denúncias do que por factos.

A queda da cadeira de Oliveira Salazar deu alguma esperança de mudança do regime com a subida ao poder de Marcelo Caetano. Na década de sessenta do século passado o país crescia muito economicamente, cerca de 7% do PIB apesar da guerra e da emigração para a Europa, porque tínhamos entrado na EFTA – Comércio livre europeu. Também tínhamos melhorado muito a nossa educação com a Reforma do Veiga Simão e as expectativas da vida estavam a melhorar. Porém o conservadorismo do regime não deixou que Caetano o abrisse à democracia.

A Guerra, particularmente na Guiné, não apresentava solução. Por isso foi aí que surgiu o Movimento dos capitães onde era Governador-geral o General António de Spínola.

Os capitães estavam descontentes por causa do Decreto-Lei 353/73 que regulava a promoção ao posto de capitão os tenentes milicianos com apenas um ano de curso intensivo.

Começaram com um Pronunciamento das Caldas da Rainha em Março de 1974 que falhou. Foi a única unidade que saiu depois de tomado o quartel pelo grupo do Movimento. Foram presos duzentos militares.

Vasco Lourenço, um dos capitães de Abril foi preso e é enviado para os Açores castigado.

Adesão de outros oficiais de patente superior, Major Melo Antunes e outros Oficiais superiores. Melo Antunes, o militar que tinha conhecimentos e sabedoria política, passa a ser o ideólogo do novo regime. Adesão de Oficiais da Marinha de Guerra fez engrossar o Movimento e deu esperança aos capitães.

Otelo Saraiva de Carvalho fica a secretariar o Movimento e passa a Coordenador da Acção Política.

Após o falhanço do levantamento das Caldas a chamada Brigada do reumático – Grupo de generais e oficiais generais – quis demonstrar apoio ao governo, mas os oficiais generais mais prestigiados, Spínola e Costa Gomes recusaram-se a ir. Foram ameaçados que se não estivessem presentes seriam demitidos dos seus cargos. Não estiveram e foram demitidos.  

Livro “Portugal e o Futuro” de Spínola que causou mossa no governo por declarar a guerra perdida na Guiné.

O 25 de Abril começou por ser um Golpe de Estado corporativo devido ao descontentamento dos capitães, mas rapidamente passou a ser uma revolução devido à adesão massiva dos populares que se deslocavam para o trabalho. Apareceram os cravos nas mãos de uma vendeira que colocou um no cano da espingarda de um soldado.

Depois do cerco ao quartel do Carmo sede da GNR onde se refugiara Marcelo Caetano houve negociações entre dois homens verticais e sérios Salgueiro Maia e Marcelo Caetano, dois homens que se preocuparam em não haver derramamento de sangue – Salgueiro Maia com determinação e postura de militar rigoroso, operacional. Marcelo Caetano que se rendeu apenas com a condição de entregar o regime a um General e não a um capitão, neste caso ao general mais prestigiado do exército, António de Spínola.

O Movimento dos Capitães transformou-se em MFA – Movimento das Forças Armadas e foi este Movimento que tomou conta do poder após a rendição de Marcelo Caetano. O MFA definiu como objectivo do novo regime os três D. Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.

1º Governo Provisório chefiado pelo conceituado advogado Adelino da Palma Carlos – Presidente da República Spínola - toma posse a 16 de Maio seguinte. Fazem parte Salgado Zenha, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro e outros civis. Demissão do primeiro-ministro a 9 de Julho por não ter condições de governabilidade – conflito entre militares e partidos políticos.

2º Governo Provisório 17/7/74 Vasco Gonçalves

3º Governo Provisório 30/09/74 Vasco Gonçalves

4º Governo Provisório 26/03/75 e caiu a 8/08/75 Vasco Gonçalves

5º Governo Provisório só durou de Agosto de 75 a 19 de Setembro de 75 – Vasco Gonçalves

6º Governo Provisório – Pinheiro de Azevedo de 19/09/75 a 23/06/76

Spínola Presidente da República de 15/05/74 a 30/09/74

Maioria silenciosa 28/09/74 de apoio ao Presidente da República Spínola, fracassou e este demitiu-se sendo substituído por Costa Gomes.

Nomeado Presidente da República Costa Gomes 30/09/74 a 14/07/76.

11 de Março – tentativa de golpe de Estado de Spínola que saiu gorada. Notícias de Espanha diziam que a esquerda (PCP, COPCON e 5ª Divisão) queria matar 1500 pessoas ligadas à direita, designada matança da Páscoa. Spínola exilou-se no Brasil. A Esquerda radicalizou-se e em 12 de Março começaram as ocupações selvagens (assim se designaram) e as nacionalizações de Bancos, Principais Indústrias e Comunicação – mais de 1300 empresas.

Piquetes de civis armados pelo COPCON faziam revistas aos carros nas estradas, vivia-se um espírito de pré-guerra civil. Surgiram as mocas de Rio Maior com boicote a Lisboa por parte da CAP.

Eleições para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril de 1975. A Esquerda Radical apela ao boicote às eleições. Ganhou o PS, Seguido do PSD, PCP, CDS e MDP. O PCP, que dominava a Rua e as Forças Armadas sofreu uma grande derrota.

25 de Novembro de 1975 – Militares moderados – Eanes, Melo Antunes, Pires Veloso, Jaime Neves, entre outros, com base no documento dos nove, derrubaram os militares radicais do COPCON e 5ª Divisão e o país (Otelo, Charais, Corvacho e outros) e o país entrou numa certa normalidade, porque até aí esteve em pré-guerra civil. Basta lembrar que em Rio Maior havia placas toponímicas que diziam: De Sul para Norte, aqui começa Portugal e na entrada de Norte para Sul, aqui acaba Portugal.

Primeiras eleições legislativas livres e democráticas 25/04/76 – Ganhou o PS

1º Governo Constitucional – PM - Mário Soares - 23/06/76  

Presidente da República - Ramalho Eanes eleito por sufrágio directo Universal 14/7/76 a 9/03/86.

Revisão Constitucional de 1982 - onde se definiu o regresso dos militares aos quarteis.

Revisão Constitucional de 1989 – Onde se expurgou da Constituição a reversibilidade das nacionalizações.

Entrada de Portugal na CEE – 1 de Janeiro de 1986, pedido feito em 1977 – Mário Soares.

Privatizações, rádios locais, televisões privadas, comunicação social livre, deram origem ao Portugal de hoje. Portugal mais aberto, mais culto.

Moeda única – em 2002

Está tudo bem? Não. Há muito para fazer.

Desde logo o Ordenamento do território – Metade do País é desertificado, envelhecido e pobre e uma orla litoral mais próspera, atulhada de gente e sem infra-estruturas capazes de lhes dar qualidade de vida.

Uma Lei eleitoral desajustada – Os distritos de Bragança, Vila Real, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja elegem 23 deputados enquanto Lisboa elege 48 e Porto 40.

Nestas últimas eleições desperdiçaram-se 763.000 votos que não elegeram ninguém enquanto PS elegeu deputado com 17.608 e IL, LIVRE e CHEGA necessitaram de mais de 50.000 Votos. O Chega necessitou de 66.442, só para dar um pequeno exemplo.

A Educação: - um aluno do interior tem menos possibilidades de tirar um Curso superior do que um aluno da capital – Até pelo preço do alojamento.

Saúde – Os melhores hospitais e os melhores recursos científicos e técnicos estão nos grandes centros urbanos.

Justiça – Custo e lentidão são factores dissuasores dos pobres recorrerem à justiça apesar do apoio jurídico grátis para os carenciados.

Transportes Públicos – O Interior não tem transportes, mas paga os passes dos residentes nos grandes centros.

Ferrovia e Rede viária desajustada e cara. As auto-estradas serviram para trazer indústrias para o interior ou para levar a juventude para o litoral?

Indústria, Agricultura, Tecnologia e Inovação com pouca inovação e menos apoios.

Falta cumprir o D do Desenvolvimento e aprimorar o D da Democracia. Fez-se uma Descolonização atabalhoada e mal conseguida, mas foi o único D conseguido.

Meio século é muito e é pouco tempo. É muito tempo quando se está estagnado e se perde gerações de talento. É pouco tempo para se fazer História sem atropelos. Ainda há muita gente que viveu situações de opressão que acham que toda a liberdade é pouca e há outros que entendem a liberdade como libertinagem. Ambos estão errados.

A Democracia – o regime que nos foi deixado pelos capitães de Abril e os militares de 25 de Novembro é o único que permite aos inimigos desse mesmo regime viver sem ser limitado nas suas opiniões e nos seus pensamentos.

Para terminar vale a pena dizer que os militares são muito bons a planear e executar Golpes e Contragolpes já são péssimos a gizar e gerir revoluções. As revoluções necessitam de transformar o sentimento e identidade da sociedade. Os Golpes precisam de estratégias, tácticas, senhas, contra-senhas para que os subalternos avancem para as posições e funções previamente atribuídas. O 25 de Abril de 1974 usou como senhas a música. “E depois do Adeus de Paulo de Carvalho e a Grândola Vila morena do Zeca Afonso”. Hoje homenageamos o 25 de Abril de 1974 com música dirigida pelo nosso amigo, Professor Eduardo Geraldes.

E porque valeu a pena haver o 25 de Abril. Viva o 25 de Abril.

 

 

 

Portugal, antes e depois do 25 de Abril de 1974!

 

PORTUGAL, ANTES E DEPOIS DO 25 DE ABRIL!

Senhor Provedor, Academia Sénior, Professor Eduardo, minhas senhoras e meus senhores, muito boa tarde.

Estou aqui a pedido do meu amigo Professor Eduardo, com gosto e espero não vos maçar muito.

Alguns sabem e outros, porventura não, que Portugal não entrou na 2ª Guerra Mundial, mas esta fez muitos estragos entre nós. Desde logo a miséria, o racionamento de bens alimentares, mas também salários miseráveis, trabalho de sol a sol.

O analfabetismo era, na década de 50 do século passado mais de 40% e nas mulheres era ainda maior.

A década de sessenta teve algumas melhorias com a educação das crianças. Havia alguma obrigatoriedade de jure que não de facto. A reforma Veiga Simão veio a ajudar a reduzir drasticamente a taxa de analfabetismo nas crianças, mas nos adultos em 25 de Abril, aqui na nossa região, ainda se situava nos 35%. Teve também alguma melhoria na qualidade de vida, nomeadamente as pensões de velhice aos trabalhadores rurais em 1970 depois da reformulação das funções das casas do Povo.

Houve duas personalidades fundamentais no nosso concelho para elevar o nível educativo dos nossos adolescentes e jovens, os Padres Baptista e José Pedro que criaram os colégios de Penamacor e Medelim respectivamente e isso proporcionou a muitos jovens, de ambos os sexos, filhos de gente humilde, prosseguir os seus estudos para além da quarta classe.

O país era triste, as mulheres vestiam-se maioritariamente de preto, por causa do luto, por causa da emigração e por causa de ausência dos filhos na guerra do Ultramar.

A saúde pública era precária e as pessoas recorriam particularmente aos médicos privados, no caso, ao Dr. Moutinho, Dr. Barbas, Dr. Rodrigão e Dr. Landeiro.

O trabalho era, essencialmente rural e por isso, os rapazes que podiam iam para Lisboa para desempenhar os trabalhos mais duros e mais precários, mas diferente do campo.

As raparigas iam servir para casas de família a troco de quase nada e muitas vezes abusadas na sua dignidade.

O 25 de Abril fez-se porque o regime estava a cair de podre e começou por ser um golpe de estado perpetrado pelos capitães do quadro permanente que se sentiram humilhados por um Decreto-Lei de 1973 que permitia que tenentes milicianos com dois semestres de formação intensiva fossem promovidos ao posto de capitão quando eles demoravam quatro e cinco anos a fazer o curso.

A população de Lisboa e de margem sul do tejo, quando se deslocava para os seus afazeres diários, foi confrontada com os carros de combate no terreiro do paço e resolveu acompanhar as tropas do Sagueiro Maia que tinha vindo de Santarém e, o que era um Golpe, rapidamente se transformou em Revolução.

O Movimento dos Capitães transformou-se em Movimento das Forças Armadas que assumiu o poder e, com civis de relevo nacional, como Adelino da Palma Carlos, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Salgado Zenha, Freitas do Amaral, Sá Carneiro, católicos progressistas e muitos outros da chamada ala liberal criou o 1º Governo Provisório, que durou menos de dois meses.

O 2º, 3º, 4º e 5º governos provisórios foram presididos pelo General Vasco Gonçalves, um militar muito colado à extrema-esquerda, em conflito permanente com os governantes civis e alguns militares.

O Primeiro Presidente da República designado foi o General António de Spínola sendo depois substituído pelo General Costa Gomes, os dois generais mais prestigiados do antigo regime e os primeiros do novo.

A luta pelo poder exacerbou-se ao longo do ano de 1974, mas preparam-se as condições para as primeiras eleições livres, com o objectivo de elaborar uma nova Constituição, que substituísse a que estava em vigor desde 1933 e só tinham um ano para o fazer. Em 25 de Abril de 1975 realizaram-se as primeiras eleições livres, que elegeram 250 deputados tendo vencido o Centro do espectro político nacional. O PS de Mário Soares com 116 deputados seguido do PPD, de Francisco Sá Carneiro com 81, PCP, de Álvaro Cunhal com 30, CDS de Freitas do Amaral com 16 e MDP-CDE de Francisco Pereira de Moura com 5.

Foi constituído o 6º Governo Provisório presidido pelo Almirante Pinheiro de Azevedo, um militar prestigiado e sem medo, mas a esquerda ligada ao PCP e demais partidos da extrema-esquerda não deixavam de na Rua de se manifestar e tentar controlar o poder. Sequestraram os deputados na Parlamento deixando apenas sair os do PCP e a partir de 11 de Março de 1975 foi o início das nacionalizações das empresas e da ocupação das terras no Alentejo com o apoio da 5ª Divisão do MFA e dos mandados de captura assinados em branco pelo Comandante do COPCON Otelo Saraiva de Carvalho.

No verão quente de 75 entrou-se em pré-guerra civil com boicote aos produtos alimentares a Lisboa com barragens em Rio Maior, ataques a sedes de partidos no Norte a piquetes de civis armados a revistarem os carros que circulavam nas estradas e outras arbitrariedades.

Alguns militares de Abril dos quais se destacaram Ramalho Eanes, Jaime Neves, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Victor Alves, elaboraram o designado documento dos nove que definia normas para que houvesse moderação e efectiva democracia e se evitasse os confrontos entre o Norte e o Centro com o Sul do País.

Em 25 de Novembro de 1975 chegou a haver confronto entre os militares moderados e os afectos à extrema-esquerda tendo saído vencedores os moderados, terminou o PREC e deu-se início ao processo democrático vigente até aos nossos dias.

As primeiras eleições legislativas foram em 25 de Abril de 1976 e venceu o PS com 107 deputados, seguindo-se o PPD com 73 e o CDS com 42 (+26) e o PCP com 40 +(10) e a UDP com 1 (Acácio Barreiros).

Mário Soares primeiro-ministro pede a Adesão à CEE.  A Afirmação do CDS como grande partido da Democracia. O PCP recupera deputados, mas o MDP desaparece.

Revisão Constitucional de 1982 - onde se definiu o regresso dos militares aos quarteis.

Revisão Constitucional de 1989 – Onde se expurgou da Constituição a reversibilidade das nacionalizações.

Entrada de Portugal na CEE – 1 de Janeiro de 1986.

Privatizações, rádios locais, televisões privadas, comunicação social livre, deram origem ao Portugal de hoje. Portugal mais aberto, mais culto.

Moeda única – em 2002

Está tudo bem? Não. Há muito para fazer.

Desde logo o Ordenamento do território – Metade do País é desertificado, envelhecido e pobre e uma orla litoral mais próspera, atulhada de gente e sem infra-estruturas capazes de lhes dar qualidade de vida.

Uma Lei eleitoral desajustada – Os distritos de Bragança, Vila Real, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja elegem 23 deputados enquanto Lisboa elege 48 e Porto 40.

Nestas últimas eleições desperdiçaram-se 763.000 votos que não elegeram ninguém enquanto PS elegeu deputado com 17.608 e IL, LIVRE e CHEGA necessitaram de mais de 50.000 Votos. O Chega necessitou de 66.442, só para dar um pequeno exemplo.

Falta cumprir o D do Desenvolvimento e aprimorar o D da Democracia. Fez-se uma Descolonização atabalhoada e mal conseguida, mas foi o único D conseguido. Não há liberdade a sério quando alguns se julgam donos do 25 de Abril e nas comemorações dos 50 anos agridem uma deputada da IL e a candidata ao Parlamento Europeu Joana Amaral Dias. Nem há liberdade a sério quando há quase 20% de portugueses no limiar da pobreza. Não há liberdade a sério quando falta a habitação e o pão na mesa.

Meio século é muito e é pouco tempo. É muito tempo quando se está estagnado e se perde gerações de talento. É pouco tempo para se fazer História sem atropelos.

A Democracia – o regime que nos foi deixado pelos capitães de Abril e os militares de 25 de Novembro - é o único que permite aos inimigos desse mesmo regime viver sem ser limitado nas suas opiniões e nos seus pensamentos.

Para terminar vale a pena dizer que os militares são muito bons a planear e executar Golpes e Contragolpes já são péssimos a gizar e gerir revoluções. Eanes diz que os militares conseguiram a liberdade, mas esqueceram-se de formar cidadãos. As revoluções necessitam de transformar o sentimento e identidade da sociedade. Os Golpes precisam de estratégias, tácticas, senhas, contra-senhas para que os subalternos avancem para as posições e funções previamente atribuídas. O 25 de Abril de 1974 usou como senhas a música. “E depois do Adeus de Paulo de Carvalho e a Grândola Vila morena do Zeca Afonso”. Hoje homenageamos o 25 de Abril de 1974 com música dirigida pelo nosso amigo, Professor Eduardo Geraldes.

E porque valeu a pena haver o 25 de Abril. Viva o 25 de Abril.

 

 

Inteligência!

 

INTELIGÊNCIA!

Ao longo dos tempos tem vindo a ser estudadas, pela Psicologia e demais ciências humanas, as diversas formas de apreensão e compreensão de coisas simples e complexas pelo ser humano e, do mesmo modo, tem vindo a ser alterada a definição de inteligência consoante os ângulos em que a mesma é avaliada.

Porém, para o povo simples, comum, a inteligência é sempre entendida como capacidade de aprender coisas novas. Por vezes, também confunde inteligência com esperteza, confusão própria de quem tem pouco conhecimento técnico e baseia o seu juízo nas aparências, na notoriedade ou até nas negociatas.

Não vamos entrar nessa dicotomia e, muito menos, em conceitos etimológica e academicamente fundamentados. Vamos, sim, centrar-nos em atitudes e comportamentos públicos de pessoas inteligentes para percebermos melhor o que se passa no mundo que nos rodeia.

Nos últimos dias Sua Excelência o Senhor Presidente da República tem preconizado afirmações que deixam o comum dos mortais, no mínimo, estupefactos.

É voz corrente, entre os seus pares, amigos e até alguns inimigos, que o Senhor Presidente é dotado de uma inteligência prodigiosa, porventura baseada no seu percurso académico fulgurante, mas a inteligência tem nuances que vão muito para além da academia. Um operário, um agricultor podem ter inteligência acima da média sem conhecer nada de Física, Matemática ou Direito.

Inteligência a nosso ver, também tem a ver com bom senso, racionalidade, ponderação, sentido da conveniência, sageza analítica e capacidade interpretativa das situações diversificadas no tempo e no modo. Numa palavra, postura circunstancial.

A minha postura na minha casa, com os meus, é necessariamente diferente daquela em que me encontro no café com um grupo de amigos, numa sessão solene institucional, ou qualquer outra que implique e impacte com pessoas, sensibilidades, interesses e, até, valores éticos, morais e ideológicos.

Mas a inteligência do Senhor Presidente deve ser tão superlativa que não lhe permite recato, ponderação e, talvez por isso, outra inteligência reconhecida nacionalmente, infelizmente já desaparecida, Vasco Pulido Valente, o tenha apelidado de “picareta falante”.

Com os últimos acontecimentos qualquer pessoa minimamente inteligente inferirá que o VPV tinha toda a razão. O Sr. Presidente fala com a mesma ligeireza de um lance de futebol, de questões de Estado, de apreciações de personalidades, de análise Histórica de um povo com cerca de mil anos de História, de relações de intimidade familiar com o seu filho “Dr. Nuno”, de processos em segredo de justiça e tal despautério só poderá ser fruto de uma inteligência, no mínimo, endeusada.

Talvez por isso não lhe tenha permitido descer à terra quando falou da indemnização às colónias portuguesas, sem atentar nos factores intrínsecos, nas circunstâncias, nas trocas mútuas de conhecimentos, saberes, culturas, nem sequer no desenvolvimento de países que, em si mesmo, nunca o tinham sido por, até então, serem mais ou menos tribais e o foi o povo português com seu denodo e esforço contribuiu, decididamente, para os actuais Estados reconhecidos pelo resto do Mundo.

Também se esqueceu dos milhares de portugueses que perderam vidas e haveres, que foram espoliados e escorraçados de terras que adoptaram como suas, muitos dos quais nelas nasceram e viveram durante gerações e que nunca tiveram outra terra senão aquela onde sempre viveram.

Também se esqueceu que o seu pai protagonizou, como autoridade máxima em Moçambique, o colonialismo político e ideológico, mais do que qualquer português que naquele território procurou fazer vida, trabalhar para engrandecer o território local e nacional, sem outros benefícios que não fossem o fruto do seu labor e do seu esforço.

Também não se lembrou das mordomias que ele próprio usufruiu no palácio do governador, em Lourenço Marques, que possuía serventuários para tudo e mais alguma coisa, pagos com o suor de portugueses e moçambicanos.

Também esqueceu que, coincidentemente ou não, todos os jovens portugueses da sua idade foram mobilizados para um serviço militar obrigatório que os enviou para diferentes teatros de guerra, onde muitos pereceram ou ficaram estropiados física ou psicologicamente, enquanto ele se livrava desse fardo e podia continuar os seus estudos e a sua valorização académica como se nada daquilo estivesse a acontecer.

A inteligência do Senhor Presidente pode ser prodigiosa, mas é, seguramente, selectiva para aquilo que é do seu interesse pessoal e é pouco consentânea com as funções que desempenha que, em última análise, é a defesa intransigente da Pátria, do seu povo, na actualidade e no respeito pelos antepassados que fizeram desta Nação uma nação respeitada e admirada no concerto das nações.

Assim, pela parte que me cabe, aprecio muito mais a inteligência média dos portugueses do que a inteligência divina do Presidente.

1/05/2024

Zé Rainho